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Poetas e as virtudes públicas

As elegias eróticas de Ovídio eram muito populares. O governo de Augusto tinha outras metas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2020 | 03h00

O poeta latino Ovídio nasceu no ano de 43 a.C., em Sulmona, atual província italiana de Áquila. Era de família aristocrática e sua infância ocorreu em meio às turbulências políticas após o assassinato de Júlio César. Foi enviado para estudar em Roma com o irmão. O desejo paterno encontrou um obstáculo forte: Ovídio tinha pouco pendor para o Direito, ele queria fazer poesia.

A juventude do escritor coincidiu com a estabilidade dos anos de Augusto. As letras floresciam e os patrocinadores das artes tornaram-se uma instituição. Ovídio frequentou o “Círculo de Messala” (do general Marcus Valerius Messala Corvinus). Outro suporte da cultura foi o famoso Mecenas (hoje metonímia de patrocinador). Ao redor desses ricos patrícios, gênios como Ovídio, Horácio e Virgílio orbitavam e produziam.

Os versos de Ovídio encontraram receptividade. Nós lembramos dele, em particular, pelas Metamorfoses, narrativas mitológicas envolvendo histórias de desejos e de transformações. O livro influenciou uma enorme quantidade de artistas posteriores, de Dante ao escultor Bernini, de Shakespeare ao pintor Delacroix. Ao observar as quatro pinturas deste último no Masp, salta aos olhos a influência do romano sobre o romântico francês. Em grande parte, o esforço da cultura é a compreensão das fontes e permanentes “revisitações” que cada obra traz. O filósofo Montaigne chegou a dizer que não fazemos nada senão mútuos comentários. (“Nous ne faisons que nous entregloser.”)

Além das incontornáveis Metamorfoses, nosso autor foi famoso pela Arte de Amar, um verdadeiro manual de sedução erótica. Ovídio indica lugares para seduzir mulheres em Roma, o uso do vinho no processo de conquista e a advertência sobre a variedade dos tipos femininos. Em época pouco afeita a discursos de igualdade de gênero, ele diz: “É assim que, às vezes, a mulher que tem medo de se entregar a um homem honesto se deixa cair, vergonhosamente, nos braços de alguém que não a merece”. Alguns conselhos de Ovídio parecem eternos, especialmente quando ele recomenda nunca perguntar a idade da mulher que está sendo conquistada. Há trechos em que parece que se lê a velha cantilena machista e histórica e, em outros, surpreendentes, o poeta parece aconselhar as mulheres a usar de recursos variados para enganar aqueles homens que se supunham caçadores.

As elegias eróticas de Ovídio eram muito populares. O governo de Augusto tinha outras metas. Queria uma cidade mais moral e que exaltasse os valores tradicionais. Símbolo da sua construção de austeridade, o líder romano exilou a neta Júlia (a jovem) por adultério e ainda ordenou que a criança bastarda fosse abandonada à morte ao nascer. Na mesma cantilena, mandou Ovídio para um ponto do longínquo Mar Negro, em uma cidade que hoje pertence à Romênia (Constança), na época chamada pelo nome grego de Tomis.

Não sabemos detalhes, na verdade. Ovídio disse que havia feito um verso errado. Não identifica qual. Alguns acham que é pelo conjunto da obra que entrou em choque com o ideal do Principado de Otávio. Outros imaginam que tivesse cometido alguma indiscrição literária sobre a família do governante. O escritor desnudara o amor como um jogo erótico; Augusto queria casamentos sólidos e formais. Teria sido um choque de mundos? Em livro clássico, John Thibault (The Mistery of Ovid’s Exile, Berkeley, 1964) enumera todas as teorias levantadas desde o Renascimento para explicar o castigo duríssimo.

Do exílio, o famoso poeta escreveu cartas tentando reverter o decreto de banimento. Ali, próximo ao delta do Rio Danúbio, Ovídio morreu longe da sua cosmopolita Roma. Está enumerado entre os autores fundadores da literatura... romena.

A figura de um homem culto entre bárbaros ou do intelectual perseguido pela liberdade tem apelo artístico poderoso. Cantar a si na melancolia do estrangeiro, voluntário ou não, atraiu também Camões e Gonçalves Dias. Do solo rude e estranho brotaria um “miasma” de estranheza. Ovídio se defende alegando que algum barbarismo possa ter penetrado sua poesia por influência da distância da civilização. Camões (em Ceuta, Goa ou Macau) deseja voltar a Portugal. Gonçalves Dias estava na terra de Camões e queria voltar para o Brasil, onde as aves teriam gorjeios superiores. Ovídio morreu entre estranhos. Gonçalves Dias afogou-se perto do litoral do seu Maranhão. Camões conseguiu morrer em Portugal, no momento em que sua pátria deixava de ter autonomia e se submetia a 60 anos de controle espanhol. Morrer longe da pátria, perto dela ou com ela: o exílio é uma narrativa importante.

Ovídio morreu no ano 17 da Era Cristã. Quando fechou os olhos, Jesus já era um jovem trabalhando na carpintaria do pai. Augusto tinha morrido três anos antes. Roma, sob os imperadores Tibério e Calígula, transformaria os poemas eróticos de Ovídio em narrativas conservadoras e pueris. O amor da literatura seria superado pela vida real. Alguns poetas sofrem perseguição por descreverem os desejos dos homens. Arte incomoda o poder. Boa semana para todos. 

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