Poeta temia indiferença no Brasil

Murilo Mendes viveu os últimos 18anos de sua vida na Itália e temia que a distância e o tempoaumentassem a indiferença à sua obra no Brasil. De Roma, ondeensinava literatura brasileira, escrevia cartas angustiadas aestudiosos de seus poemas como Laís Corrêa de Araújo, com quemmanteve uma fraterna amizade. Nessas cartas, reproduzidas emMurilo Mendes - Ensaio Crítico, Antologia, Correspondência(Editora Perspectiva, 400 páginas, R$ 30), a angústia de Murilocruza as entrelinhas, quase que rogando pela intervenção daImprensa Oficial de Belo Horizonte a editar seus poemas, plenosda vitalidade da vanguarda. O temor se justificava e mesmo a comemoração docentenário do poeta, no ano passado, incentivou poucashomenagens de respeito, como a exposição que começa neste sábado,no Lasar Segall. A obra do poeta impressionava outros grandesnomes, como Carlos Drummond de Andrade, que dizia ter Muriloinstaurado na palavra seu império. Chamava-lhe atenção que, nosanos 20 e 30, quando o modernismo fervilhava, aquele mineirosurgia como um revolucionário que convivia amorosamente com otradicional. Mendes estreou na literatura em 1930 com o livroPoesia, aclamado como o conjunto de versos mais fortes emais enigmáticos até então surgidos na língua portuguesa. Opoeta não se postou logo na linha de frente dos modernistasatendendo a uma atitude independente que norteou sua vida. A Murilo, importavam mais as ramificações religiosas emsua obra. Quando se reconverteu ao catolicismo, no momento damorte de um grande amigo, o pintor Ismael Nery, o poeta iniciasua busca de restaurar a poesia em Cristo, intensificando essaluta entre o bem o mal, entre Deus e o diabo, entre o espíritoe o corpo. É dessa época Tempo e Eternidade, que Murilo assinoucom o poeta também católico Jorge de Lima e em que se destaca opoema Oração. Em seguida, escreve A Poesia em Pânico, de1937, que recebeu aplauso de Mário de Andrade. Sua produçãocontinua com O Visionário (1941), As Metamorfoses (44) eMundo Enigma (45), uma coleção de poemas dedicados à mulher,Maria da Saudade Cortesão. Finalmente, Contemplação de OuroPreto (1954), em que o autor inaugura uma nova fase em suapoesia: o reencontro com a verdade aparentemente contraditóriade que a tradição pode ser um atalho para o Absoluto. Chegou a Roma em 1957, onde fez um círculo de amizadesilustres (Chagall, De Chirico, Guillén, Cernuda, Ungaretti) econstruiu uma obra em que misturou o abstrato e o concreto paraobter imagens objetivas. Foi premiado e respeitado, mas nãoescondia a angústia de ser esquecido no Brasil, situação que nãoviu mudar até sua morte, de enfarte, em 1975, em Lisboa, ondefugia do agitado verão italiano.

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