Acervo José Paulo Cavalcanti Filho/Reprodução Thiago Lubambo
Acervo José Paulo Cavalcanti Filho/Reprodução Thiago Lubambo

Poeta revelado

Livro detalha novas facetas de Fernando Pessoa, como sua 'pálida' imaginação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2011 | 00h00

O poeta Fernando Pessoa é um mistério - escreveu cerca de 30 mil papeis, o que equivaleria a quase 60 livros de 500 páginas. Tudo praticamente trazia como tema ele mesmo ou o que lhe era próximo, como família, amigos, mitologia, ritos iniciáticos. Mesmo assim, sua curta trajetória (nasceu em 1888 e morreu em 1935) parece ainda um enigma. Não para o escritor e advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho que, depois de oito anos de incessante trabalho, concluiu o livro Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia, lançado agora pela editora Record.

Fascínio ou obsessão, Cavalcanti não sabe explicar. Adorador do poeta desde a adolescência, decidiu resgatar sua vida quando ouviu o poema Tabacaria, em 1966. Iniciou a pesquisa pelo ponto mais fascinante da obra de Pessoa: os heterônimos. Logo descobriu que eram 127 e não "apenas" 55, como se acreditava.

À medida em que se aprofundava em um assunto tão vasto, Cavalcanti descobriu que podia retratar o poeta a partir de seus próprios escritos. "Pessoa espalhou vestígios de sua vida na obra, que funciona como um diário", observa ele, em entrevista por e-mail ao Estado.

Com isso, Cavalcanti segue o mesmo rumo do pesquisador americano Richard Zenith, para quem todas as "personalidades literárias" - sejam elas os heterônimos propriamente ditos, sejam elas as dezenas de "os outros eus" menos desenvolvidos - refletem o seu criador, sendo expressões do que realmente era ou do que queria ser, pelo menos em algum canto de sua alma.

Surge, portanto, uma conclusão polêmica: Pessoa era um escritor sem imaginação, pois tudo que escrevia era colado da realidade. Claro que a tese não pode ser levada ao pé da letra, pois a genialidade do poeta estava em fazer tal transposição de uma forma peculiar e única.

Ao decidir que usaria frases do próprio Pessoa (daí o livro se intitular uma quase autobiografia), Cavalcanti preferiu também escrever como ele próprio, ou seja, raramente utilizando adjetivos e quase sempre cravando três vírgulas antes do ponto final da frase. Sobre esse processo de trabalho, ele respondeu às seguintes perguntas.

Existem mais de seis mil textos sobre Fernando Pessoa mas, desses, uma pequena parcela trata de sua biografia. Por que, nesse caso, a obra interessa mais que o autor? Ou seria porque em tudo que escreveu deixou vestígios da própria vida?

São só três biografias. A do Gaspar Simões, 1959, que é a melhor e a pior. Depois Crespo, 1986, e Brechon, 1996. Octavio Paz disse, de Pessoa, que "sua vida é sua obra, e sua obra sua vida". Penso que os apreciadores de Pessoa acreditaram nisso. O que é correto, no tanto em que a obra excede em muito sua trajetória como ser humano. Mas é um equívoco, pois Pessoa tinha uma vida - claro, acordava, vestia, comia, bebia, tinha sonhos e angústias. Sempre quis saber quem era mesmo o homem Pessoa. Como esse livro não havia, decidi escrever eu mesmo. E sim, ele espalhou vestígios por toda sua obra, que funciona como um diário. É incrível que, passados tantos anos de sua morte, ninguém tenha percebido isso antes.

Como explicar, então, a profusão de heterônimos? Se fosse possível juntá-los todos teríamos, de alguma maneira, um perfil fiel de Pessoa?

Sim e não. O papel dos heterônimos, bem visto, deve ser relativizado. O próprio Pessoa, reproduzindo o que ocorreu com seu inspirador Kierkegaard, no fim da vida, também decidiu abandonar todos eles, ao pensar escrever um livro grande, com 300 ou 400 páginas, que seria assinado por ele próprio. Apenas lhe faltou tempo, que logo veio a "mater dolorosa da angústia dos oprimidos". Apesar disso, a quantidade de heterônimos representa nele um fetiche, que atrai e desafia todos os seus estudiosos.

O senhor afirma, em seu livro, que Pessoa escreveu uma obra muito apegada à realidade. É por isso que defende uma certa falta de imaginação dele?

A frase tem mais um sentido de efeito, claro. Não quer dizer que um gênio, como Pessoa, não sonhasse nem tivesse imaginação, aqui tomada a palavra em seu sentido corrente. Mas é que, ao escrever, ou criar personagens, seu estilo era o de usar sempre o que tinha em volta. Sem inventar no espírito. Tome-se a Tabacaria. O Esteves, do poema, poderia ser qualquer um, com qualquer nome, Olegário, Sigismundo. Ocorre que, conhecendo-o como o conheço, já sabia que havia mesmo um Esteves na sua vida real. Por ironia, um vizinho, íntimo da família, que declarou sua morte no Conservatória.

Que pontes o senhor estabeleceu ao decidir escrever uma biografia de Pessoa pensada para o Brasil?

Primeiro, a língua. Igual mas diferente. Como o livro é destinado a não iniciados, inclusive traduzo palavras inusuais, que em princípio obrigaria o leitor a ir ao dicionário. Depois, temas que certamente atraem os brasileiros, que andam longe nas outras biografias. O que o atraía, a "pátria língua" e o sebastianismo. O único brasileiro citado nos poemas de Pessoa, Catulo da Paixão Cearense - apesar de ter nascido no Maranhão e morrido no Rio. Quais os brasileiros que admirava? Antonio Conselheiro e Machado de Assis. A proximidade de Pessoa com a poesia de mestres nossos como Bandeira, Drummond ou Vinicius de Moraes. De quem não gostava? Oliveira Lima. Não só ele, a bem ver, que Emilio de Menezes lhe dedicou uns versinhos que acabavam assim:

De carne mole e pele bobalhona

Ante a própria figura se extasia

Como Oliveira, não dá azeitona Sendo Lima, não dá melancia.

Assim se conta essa figura estranha

Tem mil léguas quadradas de vaidade

Por centímetros cúbicos de banha.

Como definir sua ligação com Pessoa: fascínio ou obsessão?

Os dois. Desde os 16 anos. Começou por fascínio, continuou como obsessão. Espero só que não acabe por desalento, o de constatar que poderia ter feito melhor.

Que tipo de dificuldades atravessou para terminar essa obra?

A física, de estar tudo longe, no tempo e no espaço. Fui a Lisboa, em média, quatro vezes por ano. Lá, contratei um historiador e um jornalista, para conferir tudo que escrevi, a geografia da cidade, a história de Portugal, assim por diante. E uma espiritual, a obsessão por não ter erros, o que me levou a consumir oito anos, trabalhando nunca menos que quatro horas por dia. Ninguém vai acreditar nisso, mas é verdade.

E qual a nova conclusão que mais o encantou?

A de ter conseguido traçar um esboço de sua figura real, vaidoso e ao mesmo tempo tímido. Como um quebra-cabeça que se monta aos poucos, com paixão, e que se põe a última pedra com enorme alívio. Ou acabava o livro, ou ele acabava comigo. Penso que venci.

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