Iris Nesher/Divulgação
Iris Nesher/Divulgação

Poeta israelense aborda conflitos do oriente em coletânea

Em 'O Ponto da Ternura', Tal Nitzán incorpora questão palestina e israelense

Márcio Seligmann-Silva, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 18h43

O Ponto da Ternura, volume de poemas da israelense Tal Nitzán, uma das mais expressivas de sua profícua geração, é dessas obras que nos tiram o chão sob os pés. Nascida em Jafa, filha de pais diplomatas, Nitzán viveu em Buenos Aires, Bogotá e Nova York e vive em Tel Aviv. É responsável pela tradução de mais de 70 livros da língua espanhola para o hebraico, de autores como Borges, Neruda, Paz, Lorca e Cervantes. Como poeta, ela já escreveu cinco livros, em parte traduzidos em nove idiomas e já venceu alguns do principais prêmios de poesia de Israel. A coletânea lançada pela Lumme foi organizada e traduzida por Moacir Amâncio.

Desde Baudelaire a matéria da poesia é composta por nossos choques do cotidiano e pelos paradoxos da vida moderna. Na contemporaneidade ocorreu, no entanto, uma espécie de retirada da poesia em direção ao esteticismo formalista ou ao “íntimo”, como último bastião da liberdade. Tal Nitzán, por sua vez, tem uma rara capacidade de fazer uma poesia contemporânea, revisitando a questão da “intimidade”, mas mantendo o compromisso “moderno” de dar voz às demandas do presente.

Como autora engajada na luta pela paz e pelo fim do domínio de Israel sobre as terras ocupadas pelas guerras, que se estendem desde 1967, Nitzán incorpora na sua poesia o drama duplo dos palestinos e dos israelenses. Sua voz “feminina” abraça o tema do conflito étnico-político buscando desconstruir as fronteiras entre o “nós” e os “outros”. Sua poesia é pós sionista e pós-Holocausto. Na sua geração, o tema do genocídio judaico ocorrido na Europa já deixou de ser o drama que mais exige elaboração literária. As demandas do presente ganham espaço.

O título da coletânea deriva do nome do penúltimo dos 40 poemas reunidos, o qual se abre com uma epígrafe de T. S. Eliot (do poema The Hollow Men) e fala justamente de “um ponto da ternura”. Em meio a tanta violência e destruição, esse ponto seria dado pela poesia: “Aqui é onde mora a ternura./ Ainda que o coração, em seu silêncio,/ afunde pela cidade feito pedra – / sabe que este é o ponto da ternura.”

Esse ponto é ambíguo. Pois não é só pausa, reflexão, esquecer-se, mas também recordação, reiteração da dor. Os poemas aqui, como em Paul Celan, muitas vezes são uma descrição da (frustrada) relação de um “eu” com um “tu”, em busca de um “nós”, que dificilmente pode ser alcançado. A realidade dura da violência irrompe, esfacelando a vida na esfera privada, fraturando o refúgio e a utopia da intimidade. No primeiro poema da coletânea, lemos: “Estamos frente a frente,/ de costas voltadas às desgraças do mundo./ Atrás de nossos olhos e cortinas fechados/ espalha-se de repente/ a vaga de calor e a guerra./ O calor será o primeiro a apaziguar-se,/ um vento ligeiro/ não trará/ os adolescentes baleados,/ nem esfriará a ira dos vivos./ somos uma pequena multidão/ instigada a morder, a agarrar,/ a barricar-se na cama/ enquanto no ozono/ por cima de nós/ alastra um sorriso zombeteiro”.

Já o poema Coisa Silenciosa apresenta humor mordaz ao revelar o gesto de leitura do jornal quase como um ritual canibal. Nos alimentamos da desgraça (dos “outros”) com quem mastiga um pão: “Nada mais silencioso/ do que os golpes que se abatem sobre os outros,/ não há ameaça mais inofensiva/ à paz de espírito satisfeito. Que silêncio agradável./ A não ser por um ruído agudo, penetrante,/ que perturba sobretudo pela manhã,/ mas pode-se abafá-lo facilmente/ com o sussurro relaxante das folhas do jornal./ Antes que se amontoem as ruínas sobre eles/ já estarão sepultadas sob o suplemento de variedades,/ a xícara de café pela metade,/ a batida de porta/ em nossa casa,/ que continua em pé”.

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP

Serviço:

O PONTO DA TERNURA

Autor: Tal Nitzán

Tradução: Moacir Amâncio

Editora: Lumme (100 págs., R$ 30)

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