Poeta camaleão

Evento dirigido por Edgar Scandurra lembra as várias facetas de Serge Gainsbourg nos 20 anos de sua morte

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Boêmio, compositor, cantor, poeta, ator, músico, diretor de cinema. A multiplicidade de ideias e trabalhos de Serge Gainsbourg - ícone maior da cultura pop francesa do pós-guerra - em tantas categorias corresponde ao leque de musas que o interpretaram (Juliette Grécco, Françoise Hardy, Brigitte Bardot, Jane Birkin, France Gall, Vanessa Paradis, Catherine Deneuve, Petula Clark) e à intensidade com que se dedicou a cada modalidade artística.

Sua música, em constante progresso, cobre ilimitados estilos: jazz, chanson, baladas, mambo, calipso, rock, reggae, funk, disco music, bossa nova, música africana, eletrônica e diversas tendências do pop. Muitas dessas facetas serão mostradas hoje e amanhã nos dois shows que o guitarrista e compositor Edgard Scandurra dirige para o Festival Gainsbourg Ecce Homo, no Centro da Cultura Judaica, para lembrar que, aos 20 anos de sua morte, a arte desse poeta camaleão e "pássaro noturno" está mais viva do que nunca, conquistando novos adeptos no mundo todo.

No Brasil, Gainsbourg tem também parte de seus filmes reunidos em caixa de DVDs (leia abaixo) e a cinebiografia Gainsbourg, O Homem Que Amava as Mulheres, de Joann Sfar com estreia marcada para o dia 8 de julho.

A banda Les Provocateurs, criada por Scandurra em 2008 para interpretar música francesa, faz o show principal e terá como convidados Fausto Fawcett e Bluebell (hoje), Wanderléa e Thiago Petit (amanhã). Antes deles, toca o trio Suite, com repertório pré-Gainsbourg, de autores como Boris Vian e Henri Salvador.

Nos tempos da jovem guarda, Wanderléa gravou uma versão de um dos maiores êxitos de Gainsbourg, Poupée de Cire, Poupée de Son (Boneca de Cera, Boneca de Pano) e para Scandurra tê-la nesse show (em que ela também vai cantar La Javanaise) é como se contasse com uma das musas do homenageado.

Wanderléa representa os anos 1960 e, como lembra Scandurra, o grosso da produção pop de Gainsbourg também foi naquela década. "Ela tem um valor tão grande que é como se a gente chamasse Françoise Hardy para cantar num festival como esse. Wanderléa é a nossa rainha pop." Já Fawcett está ligado à fase Gainsbarre, mais escrachada e mais madura, com o tecnopop dos anos 1980, e tem o "lado provocativo" como compositor e escritor que o aproxima de Gainsbourg. Bluebell e Pethit são expoentes da nova geração de cantores brasileiros que "tem influência dele na forma de cantar, na voz, na postura, no repertório".

"Quis dar um perfil aos convidados que abrangessem várias gerações. Isso para ter um simbolismo de que a música de Gainsbourg é vasta e atemporal. Passou por várias fases e ainda hoje pega essa nova geração de cantores e artistas que cada vez mais se revelam influenciados por ele", diz o guitarrista.

Além de Scandurra na guitarra, a banda tem as cantoras Bárbara Eugênia, Juliana R, Andrea Merkel, os jornalistas Alex Antunes e Rodrigo Carneiro cantando, Astronauta Pinguim (órgão e piano), o cantor francês Christophe Hidalgo, Claudio Fontes (bateria) e Henrique Alves (baixo).

O evento abre com um filme de curta-metragem, reunindo duas entrevistas de Gainsbourg em que, sempre mordaz, fala de sua relação com o sucesso, da rejeição da juventude francesa ao jazz na década de 1960, de seus "amores atormentados", do que é ser moderno no século 20, de como amava a noite desde quando tocava piano em bares para ganhar a vida, e outras em destaque nesta página. O jornalista Xico Sá vai fazer uma pequena introdução sobre o homenageado antes dos shows.

Elegância. Nascido Lucien Gainsburg, judeu filho de pais russos, o múltiplo artista teve a infância profundamente afetada pela ocupação nazista da França. Ecce Homo (referência à entrega de Jesus Cristo por Pôncio Pilatos) é também o título de uma de suas canções, um autorretrato em ritmo de reggae que está no roteiro dos shows ao lado de clássicos como La Javanaise, La Chanson de Prévert, Je T"Aime... Moi Non Plus, Requiem Pour Un Con e outras menos conhecidas.

"São cerca de 40 músicas em dois shows com 80% de repertório diferente em cada um. Só as que considero canções chaves dele serão repetidas", diz Scandurra. Quem for ao show de hoje ganha pulseira para entrar de graça na casa noturna Alberta#3 (Av. São Luiz, 272, tel. 3151-5299), onde mais tarde Scandurra, Fawcett e Eduardo Beu farão DJ sets com músicas de Gainsbourg.

"Ele apontava caminhos o tempo todo. Era como David Bowie. Para mim é o exemplo da pessoa que sacrifica a vida pela arte. Em comum com ele tenho essa vontade de trabalhar incessantemente e não ficar vivendo do passado", diz Scandurra, um inquieto e elegante camaleão como Gainsbourg. A propósito, ele está finalizando seu aguardado álbum com Arnaldo Antunes.

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