Heidi Schumann/The New York Times
Heidi Schumann/The New York Times

Poeta beat que editou 'O Uivo', de Ginsberg, lança poema épico inédito aos 93 anos

Lawrence Ferlinghetti mudou a face da literatura moderna e falou com exclusividade ao ‘Estado’

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

03 de setembro de 2012 | 19h37

"Time of Useful Consciousness" (ou tempo de consciência útil) é um termo aeronáutico que define aquele momento da última consciência de alguém que, por falta de oxigênio, encontra-se a ponto do desfalecer - o único breve espaço de tempo em que sua vida pode ser salva. É com esse nome que o poeta, editor e livreiro Lawrence Ferlinghetti batizou seu novíssimo livro de poemas, lançado esta semana nos Estados Unidos pela New Directions Book.

O título é, segundo Ferlinghetti, uma metáfora da atual condição do mundo dito civilizado. Ou é ressuscitado agora ou morre. Aos 93 anos, o autor notabilizou-se por ter se atrevido a publicar o mítico poema O Uivo, de Allen Ginsberg - além de trabalhos de Charles Bukowski, Jack Kerouac, William S. Burroughs e ensaios políticos de Noam Chomsky e Howard Zinn.

Em 1958, escreveu uma obra-chave da poesia norte-americana, A Coney Island of the Mind. Foi figura central da beat generation, cujos expoentes estão quase todos mortos (Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Corso, Orlovsky). Sua livraria City Lights, em São Francisco, tornou-se um centro de agitação cultural que atravessou fervilhantes cinco décadas.

O último livro de Ferlinghetti tinha sido Poetry as Insurgent Art, de 2007. Time of Useful Consciousness se insere dentro de uma tradição que ele chama de "corrente de consciência" norte-americana, na qual podem ser incluídos Fall of America, de Ginsberg: e Paterson, de William Carlos William. Mas desta vez não é a América o foco, é o mundo todo.

O poema como um fluxo de consciência volta a mostrar Ferlinghetti em plena posse de suas capacidades de ritmo e até de musicalidade, como é característica da escola beatnik de onde veio. Ele, na verdade, não concorda com a ideia de que seja produto de um movimento específico. Conta que chegou a São Francisco, pátria dos beats, em 1951, e que era apenas integrante da onda boêmia de North Beach.

"Ninguém nasce poeta. Você se torna poeta, em geral contra sua vontade. Não se escolhe essa vocação. Quando eu cheguei a São Francisco, queria comprar um pedaço de terra e fundar uma vinícola", diz Ferlinghetti.

O senhor disse, numa entrevista a uma rádio, que sua mãe era portuguesa. É verdade?

Sim, era uma judia portuguesa sefardita, cuja família deixou Portugal no século 17 ou 18 e foi para St. Thomas, nas Ilhas Virgens. Seu sobrenome era Mendes Monsanto. Era uma trajetória comum para os sefarditas, irem para o Caribe via Curaçau. A família dela depois imigrou para Providence, Rhode Island, ainda um centro de imigração portuguesa.

E o seu pai era italiano, certo?

Certo. Eles se conheceram em Coney Island, por volta de 1902, talvez 1904. Se conheceram em uma Border House, em Coney Island. Ela teve quatro filhos. Quando eu nasci, meu pai tinha acabado de morrer. Minha mãe entrou em colapso. Ela concluiu que não conseguiria cuidar de quatro filhos e me deu para uma mulher francesa que era casada com seu tio, Lourdes Monsanto. Ela me levou para a França quando eu tinha 3 anos. Vivíamos perto de Estrasburgo. Aprendi a falar francês antes do inglês.

O senhor leu os poetas franceses antes dos de língua inglesa?

Oh, sim. Fui para a Universidade de Paris, a Sorbonne, pouco antes de alistar-me no Exército e me tornar um GI-Joe. Fiz doutorado em Literatura e, naquela época, os existencialistas estavam ainda muito ativos. Li, claro, Sartre e Camus. Traduzi Jacques Prévert. Ele escreveu um livro muito famoso, Palavras (Sextante), muito influente no underground francês.

E Ferlinghetti é do Norte da Itália, certo?

Sim, perto de Verona. A família Ferlinghetti vivia perto de Brescia, em Campochiaro. Uma família grande. Há dez anos, estive lá. Houve uma cerimônia na prefeitura, e o prefeito foi me encontrar, e todos os Ferlinghetti da cidade foram lá para me encontrar.

Em seu poema, o senhor fala em Bob Dylan, Johnny Cash, Pete Seeger, Woody Guthrie como sendo os "verdadeiros poetas populares da América". Acha que os cantores pop foram mais eficientes que os poetas neste século?

O cantores folk, como Woody Guthrie e Johnny Cash e Bob Dylan e muitos outros foram poetas muito populares, venderam discos, foram às TVs. Todos os ouviram. Ao passo que os poetas, em comparação, atingiram uma audiência muito pequena. Isso é fato.

E o senhor, ainda assim, criou a City Lights, uma livraria. Hoje em dia, redes de livrarias fecham as portas todo dia. O que o senhor acha de e-books, e-commerce, todas essas novidades?

As redes de livrarias vão mal, mas não a City Lights. Nós estamos indo melhor do que nunca. Estamos nos beneficiando do fato de que somos a última livraria onde as pessoas podem ir e achar um livro de verdade. As pessoas vêm de todo lugar do mundo para buscar livros aqui. O que penso é que os e-books e toda a civilização eletrônica, a internet, o YouTube, Skype, tudo isso do mundo eletrônico, pode desaparecer em um segundo. Toda a civilização eletrônica. Pode acontecer a qualquer momento. Muitos cientistas respeitáveis do clima, hoje, advertem para o que chamam de "tipping point", um mecanismo de esgotamento. Há fenômenos do tipo acontecendo em Miami, na Flórida, neste momento. Enquanto isso acontece, as mudanças climáticas acontecem, estão fazendo uma grande festa. Lord Byron escreveu um poema sobre a batalha de Waterloo. Descreve como, enquanto os canhões soavam a distância, as pessoas faziam uma grande festa na capital, alheias à destruição.

 

TRECHO

"Walt Whitman, você deveria estar vivendo nessa hora! Otimista de uma humanidade em massa

Velho barba grisalha – velho WaltSaltando do ferry do Brooklyn

Para o coração da América

Você que contém multidões

Você que ouviu a América cantando

Você que soltou seu berro bárbaro

sobre os telhados do mundo

Você que disse ‘não soluçarei mais’

Fora do armário num mergulho sem fim

Você que iniciou a canção de um Novo Mundo

‘Solitário, cantando rumo ao Oeste’

Para onde agora, querido poeta, querido amante, eterno tudotudotudovaidarpé?"

 
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