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Poeta Ademir Assunção, que venceu Jabuti 2013, estreia show

Escritor e sua banda Fracasso da Raça mostram ‘Viralatas de Córdoba’

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2013 | 19h05

Um híbrido poético sustentado por blues, rock-n’-roll, jazz, reggae, pop. O show Viralatas de Córdoba, que o poeta Ademir Assunção (vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia de 2013 pelo livro A Voz do Ventríloquo) apresenta neste sábado, às 21h30, no Sesc Belenzinho, é um espetáculo que vem crescendo progressivamente nos últimos dois anos, culminando com o lançamento do disco homônimo há alguns dias.

O quarteto fundamental que gestou o show é o Fracasso da Raça, com Ademir nos vocais e mais Marcelo Watanabe (guitarra), Caio Góes (baixo) e Caio Dohogne (bateria). A trupe enfrentou noites escaldantes em lugares semidesertos e madrugadas geladas em bares barulhentos para chegar ao resultado. Na noite de estreia, terão o auxílio luxuoso da cantora Fabiana Cozza (que participa do blues 67-1556); do dramaturgo Mário Bortolotto (compositor da faixa Minha Vida Não Vale um Chevrolet), Thais Piza e Ricardo Garcia.

“Não são só as palavras que dizem. Cada riff de guitarra, cada linha de baixo, cada levada de bateria, cada vocalise, cada desenho melódico do cavaco-banjo, cada sequência de acordes do violão, cada nota do berimbau de boca está dizendo algo”, escreveu o poeta.

Viralatas de Córdoba é uma ideia que surgiu para o autor quando ele visitava a filha, Naiara Rotta Assunção, em Córdoba, na Argentina, onde ela estudava. Assunção notou que os moradores cultivavam o hábito de alimentar com tigelas de comida e água os muitos vira-latas da cidade nas calçadas, um pacto silencioso na cidade.

Dessa imagem nasce a faixa de abertura (que lembra a introdução de Arrigo Barnabé em Clara Crocodilo), um anúncio-prenúncio de tempos negros. É possível perceber aqui e ali as reverberações do som, como em As Ruas Estão Estranhas essa Noite (que evoca um pouco o legado de Frank Zappa) ou Eu e Você em Londres naquela Noite das Almas Geladas (francamente descolada de uma costela de Lou Reed).

Uma pegada de gospel envolve a história de Lena, uma crônica para um antigo amor, tão franca e nua que beira a transparência. “Faz tempo que não a vejo/ Talvez esteja casada com o melhor médico de Ponta Porã”.

Não é, de todo modo, um show de bons modos. Canções como Descida aos Inferninhos mostram que o poeta não se destina aos salões dos saraus bem-nascidos. “Poesia que bebe pinga no gargalo/ Poeta maldito será o Benedito.”

Nas canções, Assunção trata de sexo, solidão, marginalidade, da opressão da massificação cultural, do fundamentalismo religioso. “Não sou Platão, mas também não sou Chalita/ Não leio autoajuda/ Conheço bem o beijo de Judas.” Nascido em Araraquara (SP), Ademir Assunção é um poeta de memoráveis confrontos com o establishment literário nacional.

Jornalista, escritor e compositor, tem longa folha corrida na música em parcerias com Itamar Assunção e Edvaldo Santana. Ele lançara, em 2005, o CD Rebelião na Zona Fantasma. É um dos editores da revista de literatura Coyote. Publicou, entre outros, LSD Nô (1994), A Máquina Peluda (1997), Cinemitologias (1998), Zona Branca (2001) e Adorável Criatura Frankenstein (2004). No ano passado, reuniu entrevistas em duas décadas de jornalismo cultural no livro Faróis no Caos (Sesc Editora). Foi também o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski (2009) . 

VIRALATAS DE CÓRDOBA

Sesc Belenzinho. Comedoria. Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700.

Sáb., às 21h30. De R$ 2 a R$ 10.  

(O CD está à venda pelo site www.zonabranca.com.br - R$ 20).

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