Poesia virulenta

PARA LEMBRAR

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Em 1990 Cazuza disse que quando compôs a canção Ideologia nem sabia o que isso significava, tanto é que recorreu ao dicionário. "A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político", declarou depois. A letra da canção é pessimista porque era um resumo da história de sua geração, "que viveu o vazio todo". Outra canção de força extraordinária do CD lançado em 1988 é Brasil, que, gravada antes por Gal Costa e associada à trama da novela Vale Tudo, de Gilberto Braga, dá bem a medida da descrença com os rumos da nação na época. Em certos aspectos o país da corrupção não mudou muito, daí, a ressonância dos versos de Cazuza. Já portador do HIV, o compositor veio com artilharia pesada, soltando poesia virulenta contra a "gente careta e covarde" (Blues da Piedade), dizendo que tinha visto a cara da morte (Boas Novas) e que seu prazer agora era "risco de vida" (Ideologia), mas também cheio de ternura (Minha Flor, Meu Bebê e Faz Parte do Meu Show). É seu disco mais consistente.

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