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Poesia transcedental

Tiganá Santana mescla filosofia, candomblé e um violão misterioso em novo álbum

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2013 | 02h08

Eis o nó: onde colocar Tiganá Santana? Seria um trovador folk de linguagens afro-brasileiras? Na Escandinávia, onde seu nome já virou manchete de jornal, as comparações o situaram ao lado da melancolia acústica do britânico Nick Drake. No Brasil, do pouco que se disse, há uma evocação a Milton Nascimento, em grande medida, pela ternura da voz médio-grave e o refinamento jazzístico. O discurso do próprio, de apelo existencial-filosófico, corrobora com a falta de rótulos precisos: "Aí está o sentido de criar: provocar alguns setores dentro do outro, e também da gente mesmo, com algo que não pertence à determinada corrente. É sair do comportamento de rebanho", provoca.

Enquanto fala, pausadamente e com a erudição de quem quase virou diplomata, Tiganá lembra um monge. Nem mesmo a insistência do repórter para extrair referências artísticas mais evidentes é capaz de mudar o tom plácido de sua fala poética.

Nascido em Salvador numa família de intelectuais, o franzino rapaz de sorriso fácil demorou para dar pistas que adotaria o violão como companheiro de vida. Em casa, todos já davam como certo a carreira diplomática, tamanha a facilidade em aprender línguas. "Cheguei a ir a Brasília e fazer alguns amigos lá, mas logo declinei do projeto", lembra Tiganá, que fala com fluência inglês, espanhol e francês, além de compor nas africanas kicongo e kimbundo. Não fosse pela via formal, descobrir o mundo estava de qualquer forma em seu caminho. A começar pela formação heterodoxa, desvendada inicialmente por um tio arquiteto de gosto musical investigativo: moldava os ouvidos do menino com canções de vários países. Depois, foi a vez do professor de violão, segundo o cantor, um mestre. Com apenas 14 anos, Tiganá já aprendera com ele que a erudição podia andar lado a lado com os próprios experimentos.

Antes de assumir uma carreira artística profissional, Tiganá - nome de origem no Mali ("espécie de título dado a uma linhagem de pensadores", diz) - cumpriu o sonho de cursar a faculdade de filosofia, área em que se mantém ativo até hoje. O estopim de sua arte contou com o incentivo de alguns jornalistas amigos e da cantora Virgínia Rodrigues. Aos poucos, o virtuoso violonista ganhava espaço em centros culturais e conquistava o respeito de nomes como o de Naná Vasconcelos, Roberto Mendes e do diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, que agora assina as aquarelas do encarte de seu mais recente trabalho. O primeiro disco é de 2009, Maçalê, gravado em línguas africanas. "O estudo dessas línguas é relacionado com o candomblé, do qual faço parte."

Apesar da forte ligação com a Bahia, Tiganá está longe de ser um artista regional. Passou logo a tocar em festivais na Europa, em especial nos países nórdicos. Os gringos não escondiam a surpresa: "Que brasileiro é esse que não faz samba nem bossa nova?". Impressionado com a força de sua canção, o percussionista sueco Sebastian Notini (Eagle Eye Cherry) o levou para gravar em Estocolmo, de onde nasceu seu novo álbum, The Invention of Color, e apresentado em primeira mão à reportagem do Estado. O disco já tem distribuição lá fora, mas deve ser lançado no Brasil até abril. Em suas nove faixas, percebe-se como o cantor aprofundou a experiência de uma música transcendental, aplicado à poética que nasce mais do som do que o discurso evocado nas letras. O álbum traz participação de artistas locais, como a cantora Ane Brun e Joakim Milder, e da cabo-verdiana Mayra Andrade. Afastado da Bahia (só volta nas férias), morando em São Paulo, Tiganá mantém o aspecto filosófico em sua determinação artística. "Compor é uma maneira de interpretar a existência", diz. Em sua liturgia, o mistério continua a rondar: afinal, onde colocar Tiganá Santana?

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