Poesia sem benevolência

1ª Festa Literária das UPPs discute a produção de prosa e verso com grandes escritores

FELIPE WERNECK E HELOISA ARUTH STURM, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h07

No sábado, o escritor Ferreira Gullar subiu pela primeira vez o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no centro do Rio. Ele foi convidado para participar da primeira edição da Festa Literária Internacional das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora. Havia pouca gente da favela na plateia, mas a produção literária em comunidades pobres foi abordada na primeira pergunta.

Renata Afonso queria saber a opinião de Gullar sobre a chamada poesia da periferia. Se, para ele, faz sentido pensar na diferença entre poesia de periferia e de centro. "Não existe poesia de periferia nem de centro, existe poesia boa ou má, seja feita onde for", respondeu o poeta. "É claro que, se surge em uma comunidade X, terá características dessa comunidade, mas o que importa é se é boa ou não. Senão, vamos ser benevolentes com o favelado que faz uma péssima poesia. Não importa se foi feita por branco, índio, preto, azul ou favelado."

Para Gullar, "o cara nasce poeta" e "não importa o lugar onde nasceu". "O Noel Rosa dizia que samba não se aprende no colégio. O cara nasce cozinheiro. Nasce ladrão também. O cara nasce rico e rouba, só pode ser vocação. Roubar por necessidade é outra coisa. Poeta e ladrão, ou o cara nasce ou não consegue ser."

Quando o jornalista Miguel Conde, mediador do debate, perguntou se a política ainda é importante na vida de Gullar, ele falou da mudança de sua visão ideológica. Se disse doutor em subversão e contou que, no passado, virou comunista lendo um livro de um padre anticomunista. Hoje, afirma que o capitalismo "é invencível".

Gullar disse que sua vida é resultado do improviso, que nunca planejou nada. Ele contou que não escreve poesia desde 2009. "É possível que eu não escreva mais. Sem o espanto, o que eu escrever não presta. Eu já me espantei demais, e talvez não me espante nunca mais."

No dia anterior, o processo criativo e o início da vida literária foram os temas da conversa entre os escritores João Ubaldo Ribeiro e Ana Maria Machado na Flupp. "Esse contato da identidade dentro da diversidade é algo que a literatura permite de uma maneira muito rica e intensa", disse Ana Maria. Ao falar sobre a universalidade de seus temas e personagens, João Ubaldo disse buscar inspiração em sua cidade natal, a ilha baiana de Itaparica, com a qual tem uma ligação muito forte.

"O ser humano é a mesma coisa em toda parte. Varia em aspectos físicos e culturais, mas as paixões, as emoções humanas, são universais, então se aquilo é traduzido pela ótica de pessoas aparentemente simples ou não, meus conterrâneos, tenho a impressão de que isso fala a qualquer outra nacionalidade, atinge a todo mundo." João Ubaldo também falou sobre sua infância, rodeado de livros, e declarou: "Quando Monteiro Lobato morreu, eu tinha 8 ou 9 anos. Decidi continuar a obra dele."

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