Poesia que brota de Harold Pinter

Dirigido por John Malkovich, Julian Sands traça retrato afetivo do dramaturgo inglês a partir de seus poemas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

De repente, você está andando distraído e um homem lhe entrega um panfleto. Seria uma situação absolutamente prosaica não fosse o homem em questão John Malkovich. O famoso ator causou alvoroço em Edimburgo ao sair às ruas, panfletos em punho, para divulgar a peça Celebration of Harold Pinter.

Concebido especialmente para o Fringe - mostra paralela da grande temporada de festivais escoceses -, o espetáculo é dirigido por Malkovich. Dado que tem atraído uma boa parcela do público, que lota invariavelmente todas as sessões.

O que mais chama atenção na montagem, contudo, é menos a concepção do encenador do que o desempenho de Julian Sands. Conhecido do grande público por suas atuações em filmes como Uma Janela para o Amor, de James Ivory, e o cult de terror Orlok, O Demônio, Sands aparece aqui desprovido de artifícios.

Sozinho no palco, não usa figurinos, não está amparado por cenários e recorre apenas a alguns livros. São esses os únicos elementos que Sands traz à cena para criar o seu "one-man-show": uma celebração, bastante particular, que ele faz ao dramaturgo vencedor do Nobel de Literatura. Particular porque em nenhum momento surgem referências às peças que fizeram a fama de Pinter. Curiosamente, não é o teatro que interessa ao ator, mas a poesia.

Além de mais de 30 peças, Harold Pinter também foi autor de textos em prosa e de uma série de poemas. Uma parcela quantitativamente menor de sua obra, mas que, conforme defende o intérprete, já seria suficiente para garantir o lugar do escritor entre os grandes do século 20.

Recostado no balcão de um pub, entre goles de cerveja e pausas para fotos com fãs, Sands falou ao Estado sobre sua relação com o autor. E também sobre a maneira como selecionou os poemas que servem de esteio ao espetáculo. "Não escolhi textos nos quais ele fala de sua militância antiguerra, mas aqueles nos quais trata de questões como o amor. Ou a morte", diz o ator.

Feroz opositor da guerra no Iraque, Pinter chegou a envolver-se ativamente em protestos: discursou para mais de 1 milhão de pessoas no Hyde Park, em Londres, e abordou o tema até mesmo em seu discurso de aceitação do Nobel, em 2005. "Disseram-nos que o Iraque era uma ameaça para a segurança mundial. Garantiram que era verdade. Não era verdade", escreveu. "Quantas pessoas é preciso matar até se ser qualificado como um assassino de massas e um criminoso de guerra?" Tamanha eloquência garantiu ao autor a pecha de engajado. Também fez crescer sua fama. Mas, certamente, obscureceu um tanto seu talento pregresso.

Para compor Celebration of Harold Pinter, Sands e Malkovich parecem ter se distanciado dos estereótipos que cercam o escritor. Grosso modo, tateiam alguma coisa que poderia ser chamada de "alma". Desfiam um anedotário que comprova o propalado - e aparentemente verdadeiro - mau humor de Pinter. Aproximam-se de sua comicidade amarga e examinam alguns momentos de seu longo casamento com Antonia Fraser. Uma união conjugal que perdurou por mais de 30 anos e motivou alguns dos seus mais belos e emotivos versos. "Talvez você não possa saber quem ele realmente era se ler as suas peças, mas certamente poderá fazer isso se olhar os seus poemas", comenta Sands.

O ator fez justamente esse percurso na vida real. No início de sua carreira, debruçou-se sobre os textos teatrais de Pinter. Representações de peças como Feliz Aniversário e O Quarto. Mas, há pouco mais de seis anos, descobriu o homem que havia por trás do autor.

Doente demais para ler em público, o dramaturgo convidou Sands para interpretar alguns de seus escritos. Começava aí uma jornada em direção à poesia e à intimidade de Pinter. "Ele era uma personalidade muito forte, muito exuberante. Então, eu queria falar sobre quem ele realmente era."

Impactado por esse encontro, Sands concebeu um espetáculo que passa necessariamente pela sua própria vivência. "Não falo sobre mim. Mas uso minha experiência como um ponto de vista, uma forma de contar essa história e de colocar o público em contato com ela", observa.

Para erguer a montagem, ator e diretor levaram cerca de seis meses. Foram encontros e ensaios ao redor do mundo - em Paris, Viena ou Los Angeles -, conforme a agenda dos dois permitia. Nesse meio tempo, chegaram a cogitar o uso de fotografias, slides ou trechos de textos projetados. Preferiram, porém, ater-se às palavras.

Talvez por isso seja tão difícil enxergar a mão do diretor John Malkovich na montagem. Onde está a encenação? Tudo soa tão ascético e despretensioso. Quase como se os poemas e episódios sobre a vida de Pinter se amalgamassem naturalmente. "Malkovich atuou como uma espécie de maestro. Assim como um regente tenta tirar da música o que ela tem de melhor, ele, aqui, tenta, encontrar a essência das palavras", observa Sands.

O que emerge dessa intenção é um retrato sonoro do escritor britânico. Uma pintura de tons leves, mas traços marcados. Uma miríade de pistas para melhor desvendar a obra que já conhecemos. "Pinter também escrevia suas peças com ouvidos de poeta", lembra o intérprete. "Elas devem ser lidas como poemas dramáticos."

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