Poesia, pátria da liberdade e democracia

Octavio Paz analisa as transformações e o significado dessa arte no século 20

DANUBIO TORRES FIERRO, ESPECIAL PARA O ESTADO, , DANUBIO TORRES FIERRO É, ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h10

Após vários anos de presença editorial desordenada e parcial, Octavio Paz (escritor mexicano ganhador do Nobel em 1990) voltou à vida intelectual do Brasil. Primeiro, em dezembro, quando foi publicado O Arco e a Lira (1956), que se esgotou rapidamente e ganhou uma nova tiragem, e esta semana com o lançamento de Os Filhos do Barro (1974).

Os dois livros são traduções novas e bem cuidadas a cargo de Ari Roitman e Paulina Wacht e aparecem numa coedição que reúne a brasileira Cosac Naify e a mexicana Fondo de Cultura Económica. O fato de O Arco e a Lira ter se esgotado em apenas seis meses é uma prova mais que suficiente da necessidade que existia de um reencontro com a obra de Paz (1914-1998), que, por certo, alcançou com esses dois ensaios de literatura comparada uma estatura quase sem igual no panorama das letras ibero-americanas. Cabe assinalar que ambos os livros se propõem a servir à poesia, justificá-la e defendê-la, explicá-la ante os olhos do leitor e do próprio autor.

O Arco e a Lira indagava em três pontos principais: nas características que definem a vocação poética, na relação que o poeta mantém com a tradição histórica e cultural na qual se insere e à qual renova, e nas singularidades que se manifestam numa poesia que, como a escrita na América Latina, parece marcada por seu caráter excêntrico (similar, diga-se de passagem, ao próprio caráter dos países que lhe dão origem) com respeito à poética ocidental. E algo mais: nesse livro, Paz se perguntava com insistência sobre o sentido último e secreto que se devia encontrar no fato de que alguém aspire a se converter em um poeta num mundo moderno e se essa aspiração - ao mesmo tempo vital, existencial e intelectual - comportava, ao se encarnar, quer um consolo mentiroso, uma magia culpável ou uma filiação que garantia um destino peculiar.

Os Filhos do Barro (192 págs., R$ 49,90), por seu lado, recolhe e desenvolve o tema que aparece nas páginas finais de O Arco e a Lira: os vínculos e, sobretudo, as correspondências que existem entre poesia e história. O livro traça, de fato, um panorama do movimento poético moderno em sua relação cambiante e contraditória com o que se chama modernidade. Ali, tanto o nascimento da tradição literária que se inaugura - segundo um consenso canônico - com a obra de Charles Baudelaire, como o surgimento das vanguardas estéticas - que se sucedem sem interrupção desde o começo do século 20 -, são fenômenos artísticos intimamente entrelaçados ao desenvolvimento da sociedade contemporânea e aos supostos fundadores que vão dando forma a uma sequência histórica que inclui, entre seus paradigmas, a eclosão do capitalismo e o culto ao futuro e à ideia de progresso em suas duas vertentes maiores: a evolucionista e a revolucionária.

Uma sequência histórica que, nas visões e análises de Paz, é penetrada e interpretada pela poesia e, por isso, se torna, de modo sucessivo, história intelectual, moral, poética, e acaba por adquirir os atributos de uma grande ressonância mítica. Transformado em consciência observadora, comprometido com o mundo que lhe é próprio tanto por seu temperamento como por seu ofício, e convertido por sua vez em um ente criado que é e não é o homem que escreve, o poeta faz da crítica (da crítica como método e de seus avatares chamados ironia e analogia) uma pedra de toque e um traço que se inscreve no coração de sua obra. Além de estabelecer uma atitude e constituir um tom, a modernidade literária e o novo modo de ser poeta que ela anima abrem passagem precisamente ao papel central que ali representa uma crítica sem a qual a arte se condenaria à repetição.

Daí que, nesses contextos, a obra artística seja uma obra consciente e deliberada cuja intenção é subverter o que antes foi feito dessa ou daquela maneira e que sobre essa negação aspira a levantar, incessantemente, o até então inédito.

Uma única tradição, então, que se assume, se enterra e se revive, uma tradição que Paz chama de "tradição da ruptura". O trabalho literário é, nesse processo, uma convergência de energias, um momentâneo deter-se de impulsos que provêm de uma dinâmica anterior que lhes é própria e de uma força criadora que compromete por igual o indivíduo e a sociedade. Por último, e em consequência: pátria da liberdade, a poesia é também pátria da democracia enquanto sistema (crítico) que se recria a si mesmo.

Paz foi movido, ao longo de seus livros, pelo desejo de encontrar respostas a suas obsessões recorrentes reconvertidas numa fatalidade e num destino e também, e aliás ainda mais importante, numa política do espírito. Tais observações ressurgem em O Arco e a Lira e Os Filhos do Barro. Nesse sentido, teria sido oportuno que a edição de Os Filhos do Barro tivesse incorporado as páginas que Paz escreveu sobre a gestação do livro no prólogo ao volume I de suas Obras Completas e também o texto Poesía, Mito, Revolución, que é a culminação de todas as reflexões que atravessam essas peças já clássicas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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