Poesia no limite do conflito

Coletânea reúne trabalhos de Guenádi Aigui traduzidos diretamente da língua russa

Régis Bonvicino, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Guenádi Aigui - Silêncio e Clamor reúne poemas e textos do poeta chuvache Guenádi Aigui (1934-2006), introduzidos e traduzidos por Boris Schnaiderman em volume organizado por ele e por Jerusa Pires Ferreira. Aigui começou a escrever quando a Chuváquia ainda pertencia à União Soviética e estava sob o regime comunista. A Chuváquia situa-se na parte europeia da Rússia, entre os Rios Volga e Vyatka, e sua capital, Cheboksary está a cerca de 600 km de Moscou. Tornou-se uma república autônoma da federação russa em 1992.

O percurso de Aigui e de sua obra se estabelece sob o signo do conflito e do confronto: entre duas línguas, o chuvache o e russo, duas estéticas, a da vanguarda soviética histórica, da qual é um dos raros interessados, e o realismo socialista, e entre um poeta pobre, que se quer livre, e o Estado totalitário, censor.

Segundo Schnaiderman - o mais importante tradutor de literatura russa para o português - Aigui começou a escrever em 1958, em chuvache, traduzindo seus textos para o russo, língua na qual, igualmente, também escrevia. Em decorrência dos ditames soviéticos para a literatura sua obra foi ignorada durante muito tempo em seu país, por outro lado, entretanto, circulava em traduções húngaras, polonesas, sérvias, checas e brasileiras, neste caso graças ao esforço de Schnaiderman, em parceria com Haroldo e Augusto de Campos. Aigui é um dos poetas então "jovens" publicados na seminal Poesia Russa Moderna, de 1968 (Civilização Brasileira), de Augusto e Haroldo de Campos e do próprio Schnaiderman. Após a abertura na União Soviética, promovida por Mikhail Gorbachev, a Glasnost, Aigui passou a ser reconhecido e lido por seus conterrâneos, até tornar-se, antes de sua morte, poeta de referência mundial.

Recusa ao realismo socialista significa recusa a modelos dedutíveis para a poesia, questão permanente para os poetas, ou seja, a busca de invenção, de inovação, e de definição da própria poesia: "...Nesta / aldeia de ninguém / trapos indigentes nas cercas".

O volume traz, entre outros itens, entrevista de Aigui sobre Maiakovski e um depoimento a respeito do poeta francês René Char, com quem dialogou de modo intenso desde 1968. A poesia de Aigui debate os confrontos a que foi submetido por meio de uma estranheza abstrata, o que se explica por sua aversão ao realismo socialista, que, conforme atesta Schnaiderman, pode ser interpretada como tentativa de transcendência. Nesta perspectiva, deixo com os leitores, estes versos: "...Toco em uns pássaros nos ramos - e eles não saem voando. (...). E há qualquer coisa de humano - nessa compreensão muda".

RÉGIS BONVICINO É ESCRITOR, AUTOR, ENTRE OUTROS TRABALHOS, DE ATÉ AGORA (IMPRENSA OFICIAL - SP), E DIRETOR DA REVISTA ELETRÔNICA SIBILA HTTP://SIBILA.COM.BR

GUENÁDI AIGUI - SILÊNCIO E CLAMOR

Organizadores: Boris Schnaiderman e Jerusa Pires Ferreira

Tradução: Boris Schnaiderman

Editora: Perspectiva

(144 págs., R$ 30)

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