Poesia de Hilda Hilst, em exposição

Uma mulher e sua escrita. Fascinada pelas palavras de Nikos Kazantzakis em Carta a El Greco, a poetisa e dramaturga Hilda Hilst decidiu isolar-se na Casa do Sol, um sítio próximo a Campinas que ela escolheu para refletir sobre a natureza do mundo e do homem, seus desejos e solidão, seus pensamentos sobre a morte, a vida, a loucura, o amor. O auto-exílio ocorreu em 1966 e, com o passar dos anos, sua poesia poderosa, obscura/luminosa, foi criada, mas apreciada por poucos. O momento da redenção pode ser a noite de hoje, com a abertura da exposição Hilda Hilst - 70 anos, com entrada gratuita, na área de convivência do Sesc Pompéia.Trata-se da reunião de fotos, objetos e, principalmente, da poesia, que contam a história da artista septuagenária, tantas vezes distanciada do público pela incompreensão dos homens. "Eu me sinto uma tábua etrusca", queixou-se, certa vez em uma entrevista, referindo-se ao silêncio que rondava sua obra. Autora de mais de 30 livros de prosa, teatro e poesia, aclamada no exterior, onde recebeu diversas traduções, Hilda Hilst cristalizou em torno de si a auréola de mito."Nossa pretensão é mostrar a verdadeira mulher que está por trás dessa imagem", conta a artista Gisela Magalhães, também com 70 anos, amiga de Hilda há 55 e curadora da mostra ao lado de Ricardo Muniz Fernandes. "A exposição não é uma homenagem por seu aniversário, nem uma comemoração da sobrevivência, mas um manifesto pela paixão da escrita, pelo ofício da literatura, pelo sobreviver dessa espécie, um elogio rasgado, explícito da palavra."Assim como Hilda, que declarou ter abandonado a escrita, Gisela desistira de preparar exposições. "Entendo perfeitamente sua decisão, pois temos medo de nos repetir", justifica. Mas, ao constatar a admiração da amiga pela mostra que organizou sobre a vida e obra de Clarice Lispector, Gisela reconsiderou e saiu em busca de apoio para realizar a mesma homenagem à poetisa que teve a obra descrita pelo crítico Léo Gilson Ribeiro como "a mais audaz realizada no País depois de Guimarães Rosa".Encontrou no produtor cultural Ricardo Fernandes a parceria ideal: admirador profundo da poesia de Hilda, ele conseguiu o espaço no Sesc, contando com o apoio de seu diretor regional, Danilo Santos de Miranda. Mais: elaborou conceitualmente a exposição, ao lado de Gisela. "Sua escrita é uma busca incessante pela compreensão de aspectos fundamentais da natureza humana, como o amor, a solidão, o desejo, a paixão, o vazio, Deus", explica Fernandes. "E a busca é permeada pela palavra."Caminho de frases - É a palavra, portanto, que vai receber o visitante, no espaço de 480 metros quadrados. A literatura de Hilda Hilst surge na forma de dezenas de frases dispostas como um caminho que leva ao pensamento da autora. Frases como os versos: "Traço nessa lousa/ O que em mim se faz/ E não repousa:/ Uma idéia de Deus." Todos os seus livros, assim como reproduções das capas de traduções e das obras fundamentais em sua formação, estarão expostos na entrada, que reproduz o quintal de um sítio, com árvores e grama. São títulos em que a poetisa perseguiu o sublime em obras como Sete Cantos do Poeta para o Anjo (poesia), A Possessa e O Rato no Muro (teatro) e Fluxo-Poema (prosa).O caminho termina em uma enorme figueira, idêntica à cultivada pela poetisa. Entre seus galhos, estarão fotos de Hilda que revelam momentos de sua vida, desde a adolescência marcada pela esquizofrenia do pai, o escritor e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst, até o início da carreira literária, em 1950, quando ganhou o Prêmio Saci por "Presságio", seu livro de estréia.Da figueira, o visitante chega a uma reprodução da casa da poetisa, onde alguns de seus objetos pessoais estarão em exposição, como a máquina de escrever e fotos de Freud, Kafka, amigos e admiradores. "Ela também participou da escolha, sugerindo que trouxéssemos a estátua de uma porco indiano de turquesa", conta Gisela. A referência não é gratuita - recorrente na obra de Hilda, o porco foi associado a Deus em várias obras publicadas nos anos 70, sintetizando a blasfêmia que marca a dicção de grande parte de seus personagens. Os animais, aliás, preenchem os espaços da Casa do Sol, onde Hilda cria atualmente 97 cães.Em outro canto da exposição, embaixo da escada, estará um local para a leitura da obra da poetisa com as cópias dos originais de seus textos e anotações de próprio punho da autora. Do alto da escada, será possível por fim visualizar toda a exposição. "É o lado do avesso, assim como a escrita de Hilda olha o ser humano de dentro para fora", comenta Fernandes, que também entende a necessidade de reclusão da escritora. "Ela atingiu níveis impensáveis com sua poesia e talvez não precise de mais nenhum estímulo."O final do caminho é uma grande mesa redonda em que atores e diretores de teatro farão performances híbridas - uma mistura de leitura com interpretações. Entre os artistas confirmados, estão Antônio Abujamra, Maria Alice Vergueiro, Bia Azevedo e Fernando Kinas. Ao longo de toda a exposição, uma trilha sonora vai evocar o clima de Hilda Hilst: sons e latidos de cachorros, o vento na folhagem, o repicar de sinos, água, Mahler. Anexa à exposição, uma pequena livraria terá obras da poetisa à venda."Não acredito que Hilda venha para a abertura", comenta Gisela. "Mas, certamente, algum dia, ela vai deixar sua rotina de lado, que hoje basicamente resume-se a cuidar da casa e assistir à televisão, e conferir nossa homenagem ao seu deslumbramento pela vida e suas vontades obscenas de compreensão."Hilda Hilst. Inauguração amanhã, às 20 horas. De terça a domingo das 10 às 21 horas. Entrada franca. Sesc Pompéia. R. Clélia, 93 tel. 3871-7700. Até 4/2

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