Jessica Gow/Reuters
Jessica Gow/Reuters

Poesia como música e sonho

O poeta Tomas Tranströmer, ganhador do Nobel de Literatura de 2011, fala sobre a importância da música em seu trabalho

J. ANTONIO GONZÁLEZ IGLESIAS , EL PAÍS, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h08

Parece fácil dizer que para os poetas tudo se transforma em acontecimento, mas de fato é assim. Há poucas semanas, recebi um telefonema propondo que eu entrevistasse o sueco Tomas Tranströmer. Um diálogo de poeta a poeta, me disseram. Um grande poeta entrevistado por um dos seus leitores, corrigi.

Nascido em Estocolmo em 1931, ele é um poeta, mas também tradutor, músico e psicólogo em instituições penitenciárias suecas. Foi traduzido em mais de 40 idiomas e galardoado com importantes prêmios internacionais. Mesmo assim, o Nobel, que lhe foi oferecido no dia 6, me parecia difícil, porque não deixa de ser sueco e o paradoxo persegue os poetas.

Tomas Tranströmer responde às minhas perguntas por escrito. Não por causa da moda eletrônica da nossa época, mas porque, há 20 anos, só pode se comunicar desta forma com o mundo. Ele próprio fará alusão ao longo da entrevista ao acidente vascular cerebral que sofreu há vários anos, e o privou da fala, deixando paralisado o lado direito do seu corpo.

Poucos poetas atuais deixam tão claro que Horácio está no princípio de seus trabalhos. Em seu primeiro livro, o senhor manteve uma torrente poética vanguardista nas serenas formas horacianas.

Na década de 40, o estudo do verso clássico, além da leitura e da tradução de Horácio, fazia parte do currículo do curso secundário. Os alunos tinham 17 ou 18 anos, e foi neste tempo que comecei a escrever poesia. Nós sentíamos Horácio tão contemporâneo quanto René Char e os outros surrealistas. Em realidade, era tão ingênuo que se transformou em algo sofisticado.

É linda a singeleza deste verso: "Um quilo pesava apenas setecentos gramas". Não há como expressar melhor a leveza proporcionada pela luz da neve.

Para mim, o pensamento na forma de imagens é uma base fundamental para a poesia. Os jovens, e em geral todos nós, estamos submersos em informações, imagens e um perpétuo fotografar tudo, o que embota o nosso pensamento em imagens. Entretanto, tenho a sensação de que o repúdio da metáfora, que era possível notar claramente na Suécia há cerca de cinco anos, se modificou.

É apaixonante a voz que o senhor preserva em um poema, que diz: "Existe aquele que é bom/ existe aquele que pode ver tudo sem odiar".

Estes últimos versos pertencem a um poema que se intitula No Delta do Nilo, e que se baseia num fato autêntico e num sonho que tive quando viajava pelo Egito com minha esposa. Há 50 anos, a zona rural do Egito fazia parte do mundo subdesenvolvido, e o encontro com esta realidade foi para nós muito provocador. No meu sonho veio esta voz, que não sei o que representava, mas sei que me proporcionou uma espécie de consolo; não provocou uma aceitação passiva desta realidade, mas antes me inspirou um sentimento de esperança.

Imagino que o fato de o senhor ter exercido profissão fora da literatura lhe tenha permitido maior liberdade. Refiro-me tanto à criação dos textos em si quanto à sua independência pessoal.

Ainda jovem reconheci que não podia me manter nem alimentar uma família com poesia; de modo que escolhi uma profissão que não perturbasse a escritura, mas que lhe acrescentasse experiência. Por isto escolhi a profissão de psicólogo, escolha da qual nunca me arrependi.

É valiosa a poesia que circula fora dos livros. O senhor enviou alguns dos seus primeiros haikus como votos de Feliz Ano Novo para o seu amigo Ake Nordin. Também foram escritos pensando neste formato mais reduzido, mais poético que literário?

Ake Nordin, que também era poeta e psicólogo, trabalhava como diretor de uma prisão para jovens. Foi por intermédio dele que eu também comecei a trabalhar na prisão de Roxtuna. Os nove haikus foram escritos como agradecimento por uma visita à prisão. Foram enviados em forma de carta. Isto aconteceu em 1960, sem que eu tivesse planos para publicá-los. Quarenta anos mais tarde, alguém descobriu a carta, e os haikus foram publicados faz pouco tempo, juntamente com meus poemas completos.

Diante da fragilidade econômica da Europa, podemos pensar numa poesia europeia, independentemente dos idiomas?

O poema sempre dependerá da língua em que nasceu. Mas talvez no futuro seja mais fácil para a poesia atravessar fronteiras.

O sono e os sonhos são constantes em sua obra. O senhor não teve medo em ver no despertar uma ressurreição. O poeta é quem pode melhor transformar os sonhos em linguagem?

Um poema não é outra coisa senão um sonho que eu realizo na vigília. O sonho e o poema vêm da mesma pessoa. Eles têm certas leis em comum. Tenho uma relação de muito amor com o sonho. Vou para a cama como se fosse para uma festa. O despertar é quase sempre uma desilusão.

A um poeta tão próximo da música, que também é músico, atento à escultura, à pintura, pergunto: é próprio da poesia ser a arte que contém todas as demais?

Eu não sei se a poesia contém todas as outras artes. Penso com frequência em imagens, e a música é uma parte importante da minha vida. Isto se expressa, naturalmente, na minha escritura de poemas. A música significa, se não tudo, uma imensidão de coisas. Não tenho ouvido absoluto e muito menos uma boa memória musical, mas a música me emociona de maneira muito intensa. No início da minha adolescência, acreditei que a música seria a minha profissão. Comecei a tocar piano aos 16 anos, e fiz a passagem pela minha primeira crise existencial martelando sobre ele. Mais tarde na adolescência, a escritura de poemas predominou, mas a música tem sido sempre o meu refúgio durante toda a minha vida. / Tradução de Anna Capovilla.

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