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Poesia

Ninguém sabe quando e como o poema terminaria, se terminasse um dia

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2020 | 03h02

Tem um personagem do Molière que um dia descobre, maravilhado, que falou prosa toda a sua vida, sem se dar conta. Também há os que fazem poesia sem saber. Na próxima vez que ouvir um bom contador, ou uma boa contadora de anedotas – ou um bom contador ou uma boa contadora de qualquer tipo de narrativa –, preste atenção no domínio que têm de ritmo, métrica e outras técnicas da arte poética. Os “stand-ups” praticam a poesia inconscientemente melhor do que ninguém. Certamente melhor do que os poetas de propósito, geralmente maus declamadores.

*

Não sei de quem é a frase mas acho muito boa. “A poesia nunca termina. Ela é apenas abandonada”. Perfeito. Sempre há mais poesia além da que foi publicada ou foi para a gaveta. Ninguém sabe quando e como o poema terminaria, se terminasse um dia. Muito menos o poeta, que não tem nenhum poder sobre o seu próprio poema depois de escrevê-lo, salvo o de destruí-lo. Mas mesmo destruído o poema não acaba. Fica abandonado em algum lugar, latejado como um sapo.

*

O Ferreira Gullar também deixou uma boa frase. Respondendo sobre a utilidade da arte, disse: “A arte é necessária porque a vida não basta”. 

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Viver não basta. Viver qualquer um vive. Bote poesia na sua vida e veja a diferença. O efeito é instantâneo.

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A editora Alfaguara acaba de lançar a poesia completa de João Cabral de Melo Neto, um belo livro de capa dura para nos lembrar como é bom, de tempos em tempos, redescobrir João Cabral de Melo Neto. 

O João Cabral, por exemplo, de Morte e Vida Severina:

“A quem estais carregando,

irmãos das almas

embrulhado nessa rede?

Dizei que eu saiba.

– A um defunto de nada,

irmão das almas,

que há muitas horas viaja

à sua morada.

– E sabeis quem era ele,

irmãos das almas,

sabeis como ele se chama

ou se chamava?

– Severino Lavrador 

irmão das almas,

Severino Lavrador,

mas já não lavra.

E de onde que o estais trazendo,

irmãos das almas,

onde foi que começou 

vossa jornada?

– Onde a Caatinga é mais seca,

irmão das almas,

onde uma terra que não dá

nem planta brava”.

É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

 

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