Poemas nascidos entre as sombras

Ao adentrar o emocionante e trágico universo criado por Georg Trakl, descobre-se o vigor [br]de sua poética, feita a partir da catástrofe e do desespero, como se lê na coletânea De Profundis

Marcio Seligmann-Silva, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

O poeta austríaco Georg Trakl (1887 -1914) foi entronado após a 2ª Guerra como um dos maiores poetas de língua alemã de sua época. Em vida ele já fora reconhecido como gênio por figuras como Rilke e Wittgenstein (que o apoiou financeiramente). Nada mais justo. Na sua poesia não encontramos a pieguice de alguns românticos, nem a tendência ao abstrato de certos vanguardistas, ou a prosa em poesia do modernismo. Trakl fazia poesia da poesia em uma era pós-lírica.

Sua matéria era a própria vida dilacerada do "eu" moderno, à qual ele soube dar as formas mais surpreendentes. Diferentemente do que aconteceu com certos companheiros de geração expressionista, em Trakl o recurso ao abjeto não é mero artifício retórico, mas nasce de uma necessidade de sua poética, que pode ser lida como uma busca de expressar o real. A coletânea de seus poemas, traduzidos por Claudia Cavalcanti para a Editora Iluminuras no volume De Profundis, contém eloquentes provas dessa sua proposta literária.

Nesses poemas vislumbramos a angústia de uma geração que iria se acabar na catástrofe da 1ª Guerra. Trakl soube muito bem canalizar as forças de antecessores como Novalis e Hölderlin para a tentativa de refletir poeticamente as dores e os anseios do homem moderno. De Hölderlin encontramos em Trakl, entre outros, o motivo do "Pão e Vinho". Já o amor não realizado de Trakl por sua irmã, recorrente em seus versos e na sua prosa, pode ser posto em paralelo com o amor de Novalis por Sophie von Kuhn, cantado nos seus Hinos à Noite.

O amor proibido pela irmã surge no poema Grodek, que apresenta os terrores de experiência de Trakl como médico na guerra: "Todos os caminhos desembocam em negra putrefação. /Sob ramos dourados da noite e das estrelas/ Oscila a sombra da irmã pelo mudo bosque." O tom barroco do verso inicial é quebrado pela menção à irmã. O contraste entre noite e dourado duplica sinestesicamente a aproximação entre a irmã e o triunfo da morte. Nesse sentido, deve-se mencionar que as cores em Trakl são tremendos intensificadores da emoção. Como bom expressionista, ele carrega nelas, fundindo a paleta múltipla do grupo expressionista Cavaleiro Azul (de Kandinsky, Franz Marc, Paul Klee, entre outros) aos temas mais sombrios de Ludwig Meidner, Otto Dix e Georg Grosz.

Com Baudelaire, por outro lado, ele viu como se podia fazer poesia da abjeção da vida urbana inóspita. Na medida em que sempre retoma o tema da "apatricidade" (Heimatlosigkeit), ele canta ao mesmo tempo o fim da pátria (a famosa Heimat, ansiada pelos românticos) e descreve as profundezas daquilo que Freud denominou de "estranho" (Unheimlich).

É emocionante e terrível entrar nesse universo. Mas, uma vez dentro dele, é impossível sair. A força da obra de Trakl deixou marcas profundas na poesia do século 20 e Paul Celan foi, sem dúvidas, um de seus maiores e melhores seguidores. Celan toma de Trakl não apenas o gesto de fazer poesia a partir da catástrofe e do desespero, mas também uma série de motivos: como as imagens da papoula, das castanhas e das cobras. O verso de Trakl, do seu Salmo, "No seu túmulo o mágico branco brinca com as serpentes", será ecoado no poema mais conhecido de Celan, seu Todesfuge: "Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve".

Como toda poesia, também a de Trakl é um enorme desafio à tradução. A opção dessa edição parece ser pela tradução mais instrumental, voltada para a reprodução do conteúdo do original. Veja-se o poema À Noite: "O azul de meus olhos apagou-se nesta noite, /O ouro vermelho de meu coração. Ah, tão quieta ardia a luz! / Teu manto azul envolveu o desfalecente; /Tua boca vermelha confirmou a loucura do amigo". O título desse poema em alemão é Nacht (noite) e sua última palavra é Umnachtung, que de fato significa também loucura, mas é derivada do Nacht. Umnachtung é algo como "anoitamento". A proximidade entre noite e loucura é literal no alemão de Trakl. Sem contar que o termo Umnachtung aparece no poema em prosa Traum und Umnachtung (Sonho e Loucura) e é uma palavra-chave na sua poética. O sutil jogo de assonâncias (rimas internas) do texto de Trakl também empalidece na tradução, coisa quase inevitável. Por exemplo: Schwärze, Schweigen und Schnee, que determinam o termo "montanhas" no poema Nascimento, vira, "negror, neblina e neve". Mas o efeito poético da sonoridade do texto alemão poderá ser recuperado com a leitura do mesmo, fornecido na página ao lado da qual se encontra a tradução.

Os poemas de Trakl são um mergulho no reino das sombras e sua deusa é a melancolia. Seu Melancolia se abre com o verso terrível "És poderosa, boca escura". Mas, em Aos Emudecidos, lemos, nas linhas finais, outra aproximação de contrários, onde da noite nasce a faísca de uma tênue esperança: "Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade, / Constrói de duros metais a cabeça redentora". A sonhada "flor azul", que Novalis foi procurar na Natureza, parece agora poder vir apenas do mundo ambíguo da técnica.

Sem redenção aparente para seus dramas, Trakl levantou a mão contra si em 3 de novembro de 1914. No mesmo ano ele anotara em seu poema em prosa Revelação e Ocaso: "Quando desci o atalho rochoso, tomou-me a loucura, e gritei alto na noite; e quando me curvei com dedos prateados sobre as águas silenciosas, vi que meu rosto me havia abandonado. E a voz branca falou-me: mata-te!".

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS DE O LOCAL DA DIFERENÇA (EDITORA 34) E A ATUALIDADE DE WALTER BENJAMIN E DE THEODOR W. ADORNO (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA)

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