Poemas do que não foi dito e do que está em desamparo

Perpetuados em livros, versos de Alice Sant'Anna e Mário Alex Rosa expressam imaginação e vivências

FELIPE FORTUNA , ESPECIAL PARA O ESTADO, FELIPE FORTUNA É POETA, , ENSAÍSTA, AUTOR DE , A MESMA COISA (TOPBOOKS), O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h09

"Um enorme rabo de baleia": é como inicia a nova coletânea de poemas de Alice Sant'Anna, Rabo de Baleia, que, já no primeiro verso e no título do livro, indica, como acontece aos icebergs, que o revelado é apenas uma pequena parte do todo. Mas a imagem é ainda mais expressiva, pois o rabo de baleia se agita estrondosamente, enquanto o vasto bloco de gelo navega em silêncio e lentidão. As aberturas - do poema e do livro - sugerem um instantâneo psicológico, trazido à força para o ambiente familiar. A gigantesca aparição serviria, sim, para interromper as dimensões de fato incômodas do espaço de observação da poeta: "No sofá a falta de assunto / o que eu queria mas não te conto". Em outras palavras: é legítima a expectativa de que a poesia de Alice Sant'Anna não revelará as camadas profundas, as zonas de ambiguidade, as manifestações mais explícitas de quem se expressa.

A poeta é uma observadora distante, embora lúcida e atenta em relação ao que a cerca e ao que lhe chega. Por isso mesmo, não há qualquer excitação em sua poesia ("o corpo que chega exausto em casa"), não há tampouco sexualidade. As relações humanas se estabelecem como que ludicamente, sendo mencionadas por meio de artificiosas referências. Considerando que cada livro exibe uma construção na qual tudo importa, é possível que a dedicatória "para meus avós" e os agradecimentos "para meus pais, minha irmã, família e amigos" tenham muita pertinência para que Rabo de Baleia seja, mesmo, uma poesia apenas indicativa do que está logisticamente escondido. E não deixa de ser fascinante interpretar essa poesia pelo que não disse e não dirá. Na tradição da poesia brasileira, livros como Libertinagem ("Como deve ser bom gostar de uma feia!"), de Manuel Bandeira, e Me Segura Qu'Eu Vou Dar um Troço, de Waly Salomão, estão entre os que parecem reveladores de formas explícitas que, simultaneamente, atingem o amadurecimento de uma expressão. Nos poemas de Alice Sant'Anna, falta o juízo ou a desrazão da experiência. Quando atingir uma daquelas dimensões, a poeta poderá até mesmo se decidir pela omissão, pela elisão ou pela alusão. Na etapa confessadamente iniciante em que se encontra, a pequena parte do todo é somente indicação do que não se conhece, e não do que se sabe e se esconde.

Mas nem todos os poemas de Alice Sant'Anna apontam para essa irrealização. Em Ausência, por exemplo, a irrealização está ela mesma presente nos versos. Nada se sabe sobre o que vai escrito num "caderno azul", e a poeta confessa: "Arranco da espiral e não posto / por preguiça ou nem morta / tenho meda da espera". Em seguida, lutam no poema dois animais que simbolizam a angústia: "Durante dias ou semanas um animal horrível / (espécie de raposa) vai me perseguir / por dentro, ou serei eu mesma / (um rato?) a me roer".

Por outro lado, muitos dos poemas de Alice persistem num tom de anotação que mal disfarça a etapa de juvenília. Que poeta poderia aproximar-se da conclusão do seu poema com "tudo isso me dá um imenso prazer" ou simular experiências onde persiste o registro, como em 14, Dorchester Place e Mariachis? Há poemas que bem constituiriam entradas de um diário, mas, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Ana Cristina César - segura influência -, em Rabo de Baleia nem o corpo nem o desejo aparecem. O registro e a memória estão sob vigilância ou estão retidos.

Se a surpresa, em Alice Sant'Anna, é apenas sugerida por um sinal menor, no Mário Alex Rosa de Via Férrea está marcada por fórmulas líricas. "Riscos por toda parte / atingem o medo de perder / o que por si já é perda", escreve em Via Estreita. Em Ouve, por sua vez, sabe-se que "Talvez uma tarde possa encobrir / aquele colibri voado de si mesmo". Em Casa, "uma ilha é o que sobrou do que já não sou".

Em Anotações, "Longo é ver o entardecer / levar o amanhecer de você". Em Drifting Petals (há no livro três outros títulos em inglês sem qualquer justificação ou relação textual), o lirismo se exacerba: "Quando as pétalas são levadas / pelo vento, tento em vão / despetalar-me". Observe-se o recurso à anáfora: são lidos cinco vezes, no poema, os versos "Quando as pétalas são levadas / pelo vento".

Seria possível prosseguir com citações de uns tantos versos de semelhante fatura, nos quais há "eco de silêncios" e "uma chuva / que não para de cair de você". Mas os fartos exemplos trazidos aqui devem bastar para que se perceba o sentimentalismo e o furor emocional permanentes de Via Férrea. Na elogiosa apresentação do livro, Armando Freitas Filho salienta que "o tempo não passou para essa poesia tão sentida e vivida". Mas em que tempo se encontra o leitor para descobri-la?

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