Poemas do escritor português Helder Macedo

A dedicatória, cifrada, antecipa: "Para a S mesmo quando não". Entre as cinco epígrafes, destacam-se os versos de Luís de Camões: "E em mansa paz estava/ Cada um com seu contrário num sujeito". Opostos retidos num só corpo, paradoxos, contínuo descentrar-se, ausências e transmutações, que se registram em outra epígrafe, essa de Wilhelm Müller: "Estrangeiro quando cheguei,/ Estrangeiro quando parti". Helder Macedo é o poeta do estranhamento. Do sujeito fora de lugar e fora de si. E também da palavra inútil.É assim, desviado, desarticulado, que se processa o poema em suas mãos. O poeta e romancista português, de 65 anos, tem agora uma reunião de poemas lançada no Brasil, Viagem de Inverno e Outros Poemas (Editora Record, 191 págs., R$ 25) abarcando várias fases, vários Helders, já que começa em Viagem de Inverno, o título emprestado também à coletânea, e num retorno profundo, chega até Vesperal, livro de 1957, numa viagem por meio de dez livros. A passagem desses 43 anos e de tantos livros, contudo, em vez de consolidar a imagem do poeta, a repuxa e até arranca - como uma máscara despregada num puxão e jogada a um canto.Ao contrário de Fernando Pessoa, a referência inevitável que se desdobrou e se multiplicou com seus heterônimos, Macedo pratica uma poética da subtração, que roda e roda, experimentando perspectivas, treinando-se para a palavra, testando, mas batendo sempre, em falta, contra dois obstáculos: o nada e a morte, que dão no mesmo. É também um poeta do fracasso da palavra e, por conseqüência, do fracasso da poesia.Helder Macedo escreve com a distância dos viajantes, tanto que diz: "Tenho ainda o recibo e a mala velha/ onde trazia/ o guia de turismo traduzido/ da língua original que esqueci/ ou nunca soube/ noutra língua também desconhecida". Um viajante que persegue lugares, objetos, referências, pontos de observação mas que, nesse ir ao encalço, se perde de si. "A esquina estava lá/ e a árvore prevista/ mas não eu./ Falto-me?/ Faltei-me/ mas nem sempre é necessário não faltar", registra. Há a paisagem, a atmosfera, o em torno, mas o poema está privado daquele que vê e escreve. "Também cruzei por mim sem me chamar", ele escreve mais à frente.Eterno viajante - Sujeito dividido, separado de si, "fora de si", como os loucos talvez. O viajante que sempre foi já que, nascido na África do Sul, passou a infância em Moçambique, parte da mocidade em Portugal e, há 40 anos, vive em Londres, onde rege a cátedra Camões do King´s College. Voltou um curto período a Portugal para exercer as funções de ministro da Cultura, durante o governo de Maria de Lourdes Piltasilgo. Mas continuou em Londres, à distância.Nascido em 1935, Helder Macedo é só cinco anos mais novo que outro Helder, Herberto Helder, o mais importante poeta português vivo - além de ser o mais misterioso personagem da literatura portuguesa desde Pessoa. Pertence a uma geração intermediária entre aquela que produziu poetas como Eugenio de Andrade, romancistas como Agustina Bessa Luís e críticos da estirpe de Eduardo Lourenço, e a geração mais recente, embora já madura, que formou poetas da força do precocemente falecido Al Berto (espécie de Rimbaud lusitano, boêmio, vagabundo, poeta pop) e de Nuno Judice, o nome que mais brilha entre aqueles que agora se aproximam dos 50 anos de idade.Mas o abismo maior não é o das gerações, que afinal é só um registro de datas, e sim, Helder Macedo diz, o das palavras. De um lado o poeta, de outro as palavras, tanto que o poeta escreve: "Se havia corpos não sei. Porque há metáforas/ de que é prudente sempre duvidar". A língua sob contínua suspeita - como simulacro, armadilha, truque. O poeta tem à sua disposição, portanto, um instrumento condenado à falha. Diz: "Metáforas mentidas falsos versos/ papagaio real a ver quem passa./ Passou?" A língua inútil, máquina de suposições e de desconfianças, de dúvidas mais que respostas. No entanto, nada mais lhe resta. "Passado algum tempo/ somos o que temos", diz. E há ainda um descompasso entre saber e viver: "Quando os corpos sabem/ começa a ser tarde/ chega a primavera/ quando a gente parte", escreve.Há muito pessimismo, é verdade, na poesia de Helder Macedo. E por trás de tudo, a morte - no balcão de balanços, a tudo anular. Porque, sob toda sedução da língua, cavando e cavando, empenhado em dissecar as palavras, o que o poeta encontra, por fim, é o vazio. "Cortaram membro a membro a minha árvore/ ficou só a raiz e o seu vazio/ e sobre o campo em volta a neve quente/ das suas flores perplexas/ impossíveis". Toda a tarefa da língua conduz só ao fracasso: "Cada peça de mim não me contém/ e eu não contenho nada pois sou peças/ que apenas a memória finge um todo./ Se tudo faz sentido nada o faz". O poeta é um homem que fracassa.Helder Macedo é, certamente, um poeta metafísico - mas descrente da metafísica. Seus grandes temas recorrentes, morte, destino, incompletude, não conduzem a uma adoração do mistério. "Não há mistério/ há corpos/ com saídas e entradas/ que se encontram/ e articulam o serem divididos/ não há não há mistério", escreve. E, mais à frente, numa rara investida lírica, diz: "sossega meu amor/ não há mistério/ meu amor". É um poeta voltado para o abismo, para o além, ciente contudo de que nada disso há, de que só há nada. E é aqui, para ele, que a poesia começa, que não deixa de ser um substituto fracassado da religião. "O que a palavra abriu/ foi a paixão", diz. Fora dela, se não for por ela, a palavra é só uma impossibilidade: "a palavra que não diz/ e se for dita/ desintegra".Dentro do pessimismo, porém, ainda resta um sentido para a poesia, o de organizar o mundo que, no fim, não tem ordem alguma. "O pensamento finge a ordem/ e a vida é o desencontro/ da ordem/ com o caos". Um caos latente, que a palavra vem esconder e consolar. Palavra que esconde o corpo, "porque é mais fácil conceber um deus/ do que explicar o teu corpo/ e o meu corpo". A palavra como salvação, que ainda assim nada salva. Como consolo, tapete suave em que o tempo duro se desenrola. Helder Macedo escreve poemas tristes, desinteressados das experiências formais, das crenças literárias, das doutrinas de escola; experimenta as palavras no que elas ainda podem, experimenta seus limites, sua eficácia e, mesmo desencantado, escreve uma poesia de vigor incomum.Poeta que, ainda para consolar-se com as palavras, se volta para a cidade que vive para escrever: "porque o tempo de Londres/ é como estados de alma/ e as Estações cabem todas".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.