Poemas de Ronny Someck

(Os poemas foram publicados em Gol de Esquerda, da Annablume, com tradução de Moacir Amâncio)

23 de novembro de 2012 | 19h09

Bagdá, fevereiro 1991

Por aquelas ruas bombardeadas empurravam meu carrinho de bebê.

As jovens de Babilônia beliscavam meu rosto e abanavam com palmas de tamareiras

os meus cabelos loiros.

O que ficou desse tempo escureceu muito,

como Bagdá

e como o carrinho de bebê que tiraram do abrigo antiaéreo

nos dias de espera anterior a outra guerra.

Oh, Tigres, oh Eufrates, mimosas cobrinhas no primeiro mapa da minha vida,

como trocaram de pele e se tornaram víboras.

Linha da pobreza

Como se fosse possível traçar uma linha e dizer "abaixo disso é a pobreza".

Aqui está o pão colorido de maquiagem barata

que ficará preto

e as azeitonas no pires

sobre a toalha da mesa.

Pelo ar, pombas fizeram um voo de continência

ao tilintar da sineta na mão do vendedor de querosene numa carroça vermelha,

havia também o barulho do chafurdar das botas de

borracha na terra barrenta.

Eu era menino, na casa que chamavam de barracão,

no bairro que chamavam de campo de trânsito dos

imigrantes.

A única linha que eu via era a linha do horizonte e

abaixo dela tudo parecia

pobreza.

Poema patriótico

Eu sou iraquiano-pijama, minha mulher é romena

e nossa filha é o ladrão de Bagdá.

Minha mãe continua a ferver o Tigre e o Eufrates,

minha irmã aprendeu a preparar pirushki com a mãe russa

do marido dela.

Nosso amigo, faca-marrocos, crava o garfo

de aço inglês no peixe que nasceu na costa norueguesa.

Somos todos trabalhadores despedidos que fizeram descer dos andaimes da torre

que pretendíamos construir na Babilônia.

Somos todos lanças enferrujadas que Dom Quixote brandiu

perante os moinhos de vento.

Nós todos ainda atiramos nas estrelas deslumbrantes

um momento antes que elas sejam engolidas

pela Via Láctea.

NT - Iraquiano-pijama, clichê aplicado aos judeus iraquianos em Israel porque teriam hábito de vestir pijama o dia todo. Faca-marrocos - clichê popularmente aplicado a judeus marroquinos e obviamente associado a violências que seriam praticadas por eles quando chegaram em massa a Israel nos anos 1950 e 1960.

Bloody Mary

A poesia é a garota dos bandidos

no banco de trás de um carro americano.

Os olhos dela são apertados como um gatilho e a pistola dos seus cabelos dispara

balas loiras que lhe deslizam pelo pescoço.

Digamos que a chamam Mary, Bloody Mary,

e de sua boca as palavras são espremidas feito suco do ventre de um tomate

previamente retalhado

no prato de salada.

Ela sabe que a gramática é a polícia da língua

e a antena redonda na orelha dela

identifica de longe a sirene.

O som desviará o carro do ponto de interrogação

para o ponto final,

ela abrirá a porta

e estacará na beira da rua tipo metáfora para a palavra

puta.

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