Poemas de Khalid Al-Maaly

(tradução de Mamede Mustafa Jarouche)

23 de novembro de 2012 | 19h13

Eu sou da Terra de Guilgamesh

A vida não nos quis, esta felicidade difícil, nossas dores

nos mastigam pelo caminho, em nossa nudez, a morte estreita nossa vida.

Puxamos nossas sombras como quem rasga as nuvens, como quem arrasta

os ventos para que lancem sua areia em nossas bocas, para nos cegar,

durante o trajeto, choro a canção do caminho,

choro a vida fácil,

a memória que, das colinas, transparece

com a mão pustulenta

e a visão, que parece um povo sem refúgio, descalço, a alvéola

no ar, em cima de todos.

Sou da terra de Guilgamesh,

minha vida é imperfeita, e meu nome na terra está enterrado:

não tenho mão com que acenar, nem língua ou boca com que falar

Caminho com todos os meus pesos,

Lamento as cidades antigas

e as canções cujas pontas se prenderam em galhos secos;

o vento gelado é minha casa

e tudo o que detenho das ruínas do mundo são estas lembranças.

Quiçá o silêncio se pronuncie

Combates a ti mesmo à noite, e de dia

te levantas para encostar as lembranças num canto.

Onde te extraviaste? E como o tempo te conduziu

tão devagar? Pastoreavas uma vida

que não te pertencia, a janela fechada, a névoa

envolvendo todo o espaço sobre o rio,

a água a escorrer lentamente, e a noite,

dentro de ti, chega de dia, e te desesperas de verdade;

vês a conduta do mundo, já ninguém a compra

por um centavo: vês o que já foi, o que

sucedeu, o que passou e passará, a fumaça...

Em seguida, retornas para dentro de ti mesmo, pois quiçá

a palavra então te ocorra, e quiçá o silêncio se pronuncie 

Os dias são cães

Os dias eram cães, e caminhavam por nossa estrada,

latindo contra passantes como nós, correndo

hoje, aqui, e roubando a nossa comida;

continuamos, pois, perplexos diante das memórias que,

de longe, tal e qual miragens, despontam.

Pus-me a pereseguir a vida

Já não penso, a vida me ignora,

Caminho na direção da minha mão, da minha boca,

caminho daqui para lá,

eu, que sempre conheci a alma, vejo

seus entrelaços, e sempre que as memórias somem

eu de novo as encontro, eu que já não

penso, a boca fechada, observando

ao longe o rio, sua água corrente,

madeiras flutuando, e sobre elas aves

construindo, em sonhos, seus ninhos;

porém eu, que sempre penso no que

já esqueci, a vida me amarrava

com uma linha, eu a perseguir as lembranças,

daqui, dali, mas sempre que as encontro

as perco, e me ponho a perseguir a vida.

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