Poemas de Jackie Kay publicados em 'Fiere'

Entre o Dee e o Don*

27 de abril de 2012 | 18h51

O meio é o melhor lugar para se estar

Ditado ibo

Ficarei não no passado ou no futuro

não no primeiro plano ou no último

não como o primeiro filho ou o último.

Ficarei sozinha no meio.

Fui concebida entre o Dee e o Don.

Nasci na cidade de penhasco e pedra

Não sou uma filha de um pai.

Não sou uma irmã de um irmão.

Sou clara e escura.

Sou pai e mãe.

Fui concebida entre o Dee e o Don.

Nasci na cidade do penhasco e da pedra.

Não sou compassiva e não sou cruel.

Não irei contra um lado.

Não sou sábia nem sou tola.

Eu não nasci ontem.

Fui concebida entre o Dee e o Don.

Nasci na cidade do penhasco e da pedra.

Posso dizer amanhã é outro dia amanhã.

Venho do velho mundo e do novo.

Vivo entre risos e penas.

Vivo entre a terra e o mar.

Fui concebida entre o Dee e o Don.

Nasci na cidade do penhasco e da pedra.

* Dee e Don são nomes de rios.

Companheira no Meio

Eu estava perdida no meio de minha vida;

não conseguia ver a floresta somente as árvores - 

a bétula, a faia, o sicômoro.

Era verão: um caos de folhas.

Eu entrei mais longe, mais fundo, do que jamais entrara.

Eu tinha perdido meu rumo, meu coração, minha mulher.

Não conseguia ler e não conseguia escrever.

Pássaros caíam dos ramos. Eu perdi meus sentidos.

A escuridão desceu e me comprimiu.

Eu não queria ser encontrada; ou deixar que entrasse a luz.

Tu assumiste o risco e te embrenhaste na floresta.

Tu rastreaste um sapato e depois outro;

até que viste- como se de cima, de longe -

a simetria casual de pegadas...

e seguraste minha mão e me guiaste para fora.

*

Aí, ano passado, foste tu - perdida em tua meia idade.

Teu pai morreu, tua amada partiu no inverno mais frio.

E os anos que estiveste lá mudaram; eu estava aqui.

As árvores não tinham folhas, galhos nus;

árvores invernais reverenciavam a pura estrutura, bizarras simetrias.

Coisas estranhas ocorriam em mesmos dias; coincidências.

Eu vi a menina que serias; a velha que serias.

Vim para o teu jardim quando não havia maçãs em tuas árvores;

eu dancei uma dança africana para afugentar teus fantasmas.

Encontrar é um ato de fé, tu disseste uma vez lá nos bosques.

Se estiveres perdida na meia idade...

as verdadeiras companheiras aparecem: hábeis, sólidas, igualmente

boas.

 

Enterrando meu pai africano

Agora que percorri o caminho inteiro

a estrada de terra vermelha até Nzagha

e vi os lagartos e lagartixas

e bodes e todas as criaturas de Deus

e andei ao lado do capim-elefante

de banana-da-terra, banana e mandioca

pelo o portão da tua aldeia

passei a placa que dizia Salão de Barbeiro aqui

e segurei o pequeno bebê de duas semanas

de tua prima em segundo grau, e disse Odimma

a tua tímida Kedu, e fiquei do lado de fora

de tua casa e espiei pelas venezianas,

e no quarto do hotel, lembrei-me bem de ti

rodopiando e orando anos atrás em Abuja

quando me disseste que não revelaria

o nome de tua aldeia, de teus filhos ou tua filha.

Agora que finalmente cheguei, sem ti,

à casa dos ancestrais, posso dizer-te adeus, Adieu.

Pois devo, com minha própria pena preta - em lugar de uma espada -

cinzas a cinzas e pó ao pó,

e anos antes de estares realmente morto,

enterrar-te bem aqui em minha cabeça.

Tradução de Celso Paciornik

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