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Leandro Karnal
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Poema de outono

O outono lembra que tudo passa e que, por isso, é fundamental aproveitar o tempo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 03h00

Cecília Meireles pede perdão à folha de outono por não poder cuidar dela: “vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi”. Desiludida, encerra a Canção de Outono: “Tu és folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade – a melhor parte de mim. E vou por este caminho, certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão...” Aqui tange, melancólica, a lira da poeta carioca. Atravesso o “Mar Tenebroso” e contemplo Portugal. Aqui as estações são mais definidas. Se uma carioca como Cecília já lamentava as folhas esmaecidas da estação, imagine-se Fernando Pessoa em terra de outono real? Diz o lusitano que se esquece das horas transviadas com as cores dos outeiros e: “No meu cansaço perdido entre os gelo/ E a cor do outono é um funeral de apelos/ Pela estrada da minha dissonância...” Cecília e Fernando tinham o tom rebaixado do pré-inverno. De volta ao Brasil, encontro Mário Quintana afinado em outro diapasão, de um pós-verão. Sorridente, ele revela um Hai-Kai: “Uma borboleta amarela? Ou uma folha seca que se desprendeu e não quis pousar?”.

Amo Cecília e Fernando Pessoa. Porém, sem dúvida, se fosse para brindar o que no Brasil começa no fim de março, avança em abril e chega ao ápice em maio, eu estaria com Mário Quintana. O céu de abril e maio, no Hemisfério Sul; as árvores de setembro e outubro, no Hemisfério Norte, são o momento de plena felicidade para mim. A luz invasiva do verão recebe, da natureza, um bom filtro de Instagram. A temperatura cai um pouco. A explosão de vitalidade diminui, o caqui surge às mesas, a gardênia espalha seu perfume doce e ainda não chegamos ao frio do inverno. A abundância do verão é excessiva, enfastia. O inverno é o frio, a escassez, a dureza de recursos. Entre o muito e o nada, a medida justa do outono chega. A medida justa de tudo é o outono. 

É a estação das subidas e descidas. Faz calor, faz frio, não existe uniformidade como em outras latitudes. Porém, o mais importante: não somos expulsos do mundo pelo calor sufocante e pessoas não morrem congeladas nas calçadas. A estação civilizada é o outono. Começa a temporada do pinhão. Caem as folhas do bordo e do plátano nos climas mais frios. Antes de morrerem, abusam de todas as formas de amarelo, vermelho e dourado. As cenas mais bonitas da minha vida são árvores de outono explodindo de luz.

A hora mais gostosa do sono, a cama mais receptiva, é aquela próxima ao fim do descanso. O outono me parece o momento em que a plenitude do verão se foi e o rarear do inverno ainda não se impôs. Nem excesso e nem falta: a medida do outono. 

A vida explode no seu apogeu biológico na juventude. Tudo funciona e o tempo adiante parece infinito. Jovens são esbanjadores do tempo porque o imaginam inesgotável. Próximos ao fim, enfrentamos a escassez de tudo: de força, de vontade e de tempo. A mocidade é o verão pleno; a maturidade avançada é um inverno desafiador. No meio está o outono. O corpo já precisa de muletas, ao menos para os olhos. Surgem remédios. Há problemas, porém não são diários. É o outono existencial. Nem brilha sol forte e nem está pelada a árvore. A música de fundo é tranquila. Não precisamos correr, o que é melhor do que o não poder correr da senilidade. 

Concordo com Drummond: o outono é mais uma estação da alma do que da natureza. É proibido pensar no verão; a vida está em cachoeiras no estio. É obrigatório pensar no inverno: a introspecção é uma parede intransponível em meses frios. O outono é democrático: você pode pensar no fim de tudo, na impermanência, na beleza, no tom amarelado ou vermelho, no que se foi e naquilo que se anuncia: a escolha é sua. Livre também para um vinho leve e frutado à luz do dia e outro, encorpado, à noite. Livre para roupas de múltiplas personalidades. Não precisa expor o corpo e não precisa sufocá-lo em lãs. O verão grita, o inverno sussurra e o outono conversa. No Brasil, é a época da Páscoa, o primeiro domingo após a primeira lua cheia de outono. Nos Estados Unidos, a estação de Halloween e de Ação de Graças. 

Minha irmã e meu cunhado plantaram um bordo vermelho no belo jardim deles no Sul. Foi em minha homenagem. Aceitei feliz. Sabem que amo bordos, em particular, o vermelho. Ainda pequena, a árvore levará anos para chegar à plenitude. Imagino que encantará os passantes quando eu já não estiver por aqui. Talvez Rose e Adão já nem sejam proprietários da casa e não existam mais Karnais pelo mundo. O bordo estará lá solene e distante das aflições do mundo. O outono lembra que tudo passa e que, por isso, é fundamental aproveitar o tempo. Carpe Diem de felicidade e de prazer, de afetos e de cuidados. Eu, no apogeu do meu outono, sentindo que a frente fria mais rigorosa desce das montanhas, olho para o pequeno bordo com emoção. Como é bom saber que, mesmo insignificante no universo, eu posso parar um instante e fixar minha alma em uma árvore, plena, solene e forte. Enfim irmanados, eu, o passageiro, ela, mais permanente, as pedras ainda mais longevas e tudo estamos em plena e absoluta união por um instante. Depois, todos passamos e somos livres, sempre livres, como suspiros no grande universo que não conhece outra estação além da eternidade. Viva o outono. Viva a esperança. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

 

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