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Ignácio de Loyola Brandão
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Podemos, sim, sair das trevas

Ao longo da vida, criamos cracas, assim como as antigas caravelas viviam cheias delas

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 03h00

Caro Sidarta Ribeiro, nem imagina como foi bom participar de uma live com você. Há instantes em nossa vida em que, se estivermos abertos, descobrimos que algo se passou e continuamos a viver um pouco diferentes. Ao longo da vida, criamos cracas, assim como as antigas caravelas viviam cheias delas agarradas ao casco e que diminuem a velocidade na navegação. É preciso limpeza de tempos em tempos. Você, de cara, me conquistou ao contar que meu romance Não Verás País Nenhum te abalou aos 12 anos. Pronto, me entreguei. Conversar contigo durante hora e meia, na live promovida pelo Fernando Quintino e pelo Daniel Brandão, meu filho, foi um upgrade para mim. 

Sabia quem você era quando me convidaram, te vi no Roda Viva, um dos melhores dos últimos anos. Minha falha foi ainda não ter lido seu livro O Oráculo da Noite, mas já encomendei. Mas veja que curioso. Tenho 83 anos e você 49. Portanto 34 anos nos separam, o que é bastante nestes tempos em que tudo gira em velocidade. Durante nossa conversa deveria ter dito uma coisa, não disse. Mas teríamos tido mais assunto. Quando você nasceu em 1971 eu tinha 35 anos e começava a preparar a edição brasileira da revista Planeta, cujos direitos Luis Carta tinha comprado da França. A Planète foi criação de Louis Pauwels e Jacques Bergier, que criaram o realismo fantástico em um livro que viralizou no mundo, O Despertar dos Mágicos. 

Do que se ocupava a revista? O poder da mente dos povos primitivos, a transmissão pelo pensamento, a neurociência, o movimento do pensamento alquímico, as civilizações desaparecidas, o universo paralelo, o poder dos raios, os extraterrestres, a existência das fadas, alucinógenos, LSD, o poder da plantas, xamãs, religiões orientais, as medicinas alternativas, a mescalina, as portas da percepção (Huxley), a expansão da consciência, câmeras que fotografavam o passado, a vida artificial, mistérios da água. Durante sete anos editei a revista que foi um assombro, porque tratava de assuntos insólitos, alguns proibidos. Lembre-se, era plena ditadura Médici.

Nunca me esqueço do artigo O Homem Vai Sobreviver?, de José Maria Domènech, publicado em 1973, quando você tinha 2 anos. Ele indagava: O homem vai conseguir chegar ao terceiro milênio? Respondia que sim, com a ciência, a expansão dos microscópios e telescópios cada vez mais potentes, a descoberta das chaves dos códigos genéticos, as ondas sonoras nas frequências de hiperciclagem, as futuras descobertas científicas e as tecnológicas trazidas pelas pesquisas cada vez mais amplas com recursos colossais poderão mudar o panorama. Quase 50 anos depois, as perguntas continuam a ser feitas. A live da qual participamos ligou uma chave entre passado e futuro para mim. E me fez perguntar: e agora, Ignácio?

Este fui eu, Sidarta. E veja você. O primeiro Sidarta – ou Buda – que me fez a cabeça foi o do Herman Hesse. Éramos muito jovens quando lemos Hesse, Sidarta, Demian, O Lobo da Estepe. Depois, parece que fiquei meio parado, quando devia ter continuado. Agora nos encontramos e você me dá uma sacudida semelhante à que tive quando fiz Planeta e li Hesse, Krishnamurti, Blavatsky e descobri planetas novos no conhecimento. Aquela pergunta de 1973 na Planeta está sendo respondida. E o meu descrédito no futuro do homem me deixou constrangido. Pessimista não sou. Mas tinha pouca fé. Também lembro de uma frase de Curt-Meyer Clason, meu tradutor para o alemão, quando me dizia que o “pessimista é um otimista com experiência”.

Passo rápido pela velha discussão sobre acasos ou coincidências – ou conectividades – sempre levantados. Neste momento, terminei de escrever um longuíssimo depoimento que me fez refletir sobre nosso tempo e a vida que levamos. É biografia de Hiroshi Ushikusa, psicoterapeuta que foi cirurgião gastro e descobriu que mais eficaz do que o seu bisturi eram as conversas e o entendimento de que as doenças de seus pacientes não eram físicas e, sim, estavam no íntimo, na profundidade do espírito. Hiroshi é o quê? Um espiritualista, praticante da Mahikari.

Na pergunta de nossos âncoras no final da live, você me alertou, ou ensinou, que há novas ciências, novos processos de pesquisas, novas mentalidades e possibilidades ao nosso alcance, com elementos tirados da natureza, destinados à expansão do conhecimento e da consciência. Uma ciência natural que pode afastar o homem dos caminhos a que ele está sendo conduzido até agora, um tempo de depressões, traumas, aflições, medo, pesadelos, martírios. Ciências e técnicas que nos afastarão do torpor a que estamos sendo conduzidos por drogas sintéticas que nos escravizam, anestesiam e nada resolvem. Sem falar dos sistemas políticos. Você me deu um grito: acorde. Você vem dando esse grito: acordemos todos. 

 

PS: Você percebeu que nem um minuto, um segundo, falamos de política?

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