Pode ser um filme cínico, mas é muito bom

Pergunte a nove entre dez críticos - onze entre dez -e eles com toda certeza se negarão a aceitar Michael Bay como um grande diretor, ou mesmo um bom realizador. O fato de ele fazer filmes grandes não significa, para eles, que sejam grandes filmes. Mas Michael Bay é um caso muito interessante, e vamos logo dizendo que Sem Dor, Sem Ganho é seu melhor filme.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h20

Antes que alguém comece a rir é bom assinalar que a série Transformers é bem mais interessante do que parece. Bay pegou carona em Stanley Kubrick - o computador Hal 9000 de 2001 - e teceu uma fábula sobre máquinas do bem contra máquinas do mal. Máquinas não têm expressão (alguns atores também não, mas isso é outra história). Para humanizar a máquina, o diretor conduz nosso olhar. E como se faz isso? Pela montagem. Leon Kuleshov na veia, Serguei M. Eisenstein - e Kubrick.

Pode parecer delírio, e a muitos parecerá mesmo, mas quando veio lançar Transformers 4 no Brasil, Bay teve uma interessante discussão sobre montagem - e esses diretores - com o repórter, no Rio. A montagem vira uma desmontagem em Sem Dor, Sem Ganho. O filme começa pelo fim, com o personagem de Mark Wahlberg acuado.

Ele é um fisiculturista de Miami que se une a dois amigos, e um deles é Dwayne 'The Rock' Johnson, para realizar o sonho americano de sucesso e dinheiro. No começo, tudo dá certo e as academias de ginástica de Wahlberg florescem numa sociedade que cultiva o físico, não o cérebro. Os problemas surgem quando ele e seus amigos bolam um plano que não dá certo - e ingressam numa vertiginosa comédia de erros. Feministas de plantão vão insistir na tecla de que Bay objetifica as mulheres e quanto a reclamar de vulgaridade - de homens e mulheres -, bem, o filme se passa em Miami. Esperavam o quê? Refinamento?

Há um filme irmão desse, e se chama Selvagens, de Oliver Stone. O outro passa-se no meio da droga e também começa pelo fim, revertendo as expectativas que a própria narrativa provoca. E é um filme sobre gente escandalosamente bonita, elegantemente montado - mas, claro, a selvageria explode em cenas de grande violência. Michael Bay não tem o twist final de Selvagens porque, afinal de contas, se baseia numa história real. Os personagens são boçais, a sociedade é podre e o trio é condenado por livrar o mundo de um tipo pior que eles. A isso se chama ética. O filme pode ser cínico, mas é (muito) bom.

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