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Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Pobreza vai virar peça de museu', promete o empreendedor Edu Lyra

Aos 33 anos, Lyra já foi destaque pela 'Forbes' e eleito pelo Fórum Econômico Mundial um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 05h00

Eduardo Lyra ou Edu Lyra, 33 anos, como é conhecido, é um dos mais influentes jovens empreendedores do País, segundo a revista Forbes de 2014, e eleito pelo Fórum Econômico Mundial um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo. Quem ouve Lyra falar sobre o dia em que a pobreza no Brasil será apenas um quadro na parede, pode achar que ele perdeu o juízo. Afinal, esse é um futuro que nos soa absolutamente improvável. Mas alto lá, ainda assim, convém ouvi-lo. O criador do Instituto Gerando Falcões, uma organização social que atua nas periferias do País, tem na própria história o lastro para a realização do impossível. “Antes do Elon Musk (fundador da SpaceX) conquistar Marte, nós vamos solucionar o problema da miséria nas favelas do Brasil. A pobreza vai virar peça de museu.” 

Há tempos, Lyra expõe, na prática, a possibilidade de transformar a pobreza em memorabilia. Em seu museu particular, por exemplo, a Mona Lisa seria uma banheira azul. “Minha família não tinha dinheiro para um berço, eu dormia em uma pequena banheira azul. A falta de um berço é emblemática da pobreza que minha família vivia.” 

Lyra nasceu na favela Jardim Vila Nova Cumbica, periferia de Guarulhos. No barraco, de chão batido de terra, o menino chegou com uma sentença de “morrer cedo ou virar bandido”. “Nossa situação era tão difícil que algumas vizinhas me pediram de presente – já que imaginavam que minha família não teria nenhuma condição de cuidar de mim.”

Quando Lyra era criança, a mãe, Maria Gorete Brito Lyra, sustentava a família como diarista. O pai, Marcio Luiz Oliveira Lyra, ex- maratonista profissional, descambou para o crime. “Meu pai foi preso por assalto a banco. Lembro da polícia invadindo nosso barraco atrás dele. Também tenho a memória de visitá-lo na cadeia.”

Apoiado na força da mãe, Lyra começou a desmontar a bomba-relógio que o destino havia armado para ele quando não desistiu dos estudos. “Eu me eduquei e entrei na faculdade de jornalismo. No meu primeiro dia de aula, o professor pediu uma redação. Ele acabou com o meu texto e disse que deveria escolher outra profissão. Só não desisti porque minha mãe ficou do meu lado e insistiu para que eu continuasse”, disse.

De fato, Lyra não chegou a se formar. Escreveu o livro Os Jovens Falcões (com relatos de jovens empreendedores). “Sem patrocínio, fiz o livro e comecei a vendê-lo, engajando outros 30 jovens na venda de porta em porta. Vendi 5 mil livros por R$ 9,90 – e me descobri um empreendedor, com capacidade para montar times e criar ambição nestes times”, falou ele, considerado Repórter Revelação pelo Instituto Itaú Cultural.

Com o dinheiro do livro Jovens Falcões, Edu Lyra fundou a ONG Gerando Falcões que, neste mês, completa 10 anos de vida. Um contato com o empresário Jorge Paulo Lemann, que até hoje é apoiador do projeto, possibilitou que Lyra fosse à Harvard (para um curso de 15 dias sobre liderança). “Costumo dizer que o Lemann me apresentou Harvard e apresentei ao Lemann a favela”, comentou.

A Gerando Falcões transformou-se em uma organização social que atua dentro de uma estratégia de redes, com projetos focados em esporte, cultura, qualificação profissional para moradores de periferias e favelas. 

O modelo de gestão da ONG e dos projetos criados e incentivados por ela é inspirado nos mecanismos de administração de empresas, como a Ambev, com metas, indicadores de performance, rituais de gestão, plano de carreira e gratificação para os colaboradores. 

A partir daí, a vida de Lyra ganhou outro rumo e o seu projeto, reconhecimento internacional. Ao longo dos últimos anos, ele foi selecionado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos jovens brasileiros que podem mudar o mundo (transformando-se em um dos membros do Global Shapers); chegou a ser eleito empreendedor do ano pelo Lide (grupo de líderes empresariais de diversos setores) e deu palestras em empresas do tamanho do Google, Ambev e outras. 

Hoje, Lyra é casado, pai de duas crianças (Lara, 12, e Luiz, 2). Sua mãe continua sendo a base da sua vida. Já o pai dele superou os problemas com a Justiça e é um avô dedicado e amoroso. Durante a pandemia, criou a ação #Covid no Paredão. Com ela, já arrecadou mais de R$ 52 milhões, beneficiando cerca de 800 mil pessoas em mais de mil favelas brasileiras. “A doação acontece por meio de um cartão que é entregue na mão da chefe da família – que pode escolher o que comprar do pequeno empreendedor da própria favela”, explicou.

Mas como partir desta experiência de vida para a ambição, como ele mesmo disse, de transformar a pobreza em uma peça de museu – inclusive literalmente? Às vésperas de completar 10 anos de atividade, o Gerando Falcões começa a colocar em prática o projeto de Favela 3D (Digna, Digital e Desenvolvida).

Em linhas gerais, trata-se de um projeto de urbanização – com ramificações em áreas como saúde, cultura, educação, segurança e renda. “É uma intervenção sistêmica de combate à pobreza, um ciclo completo de mudanças dentro da comunidade”, explicou Lyra – que chama o conjunto de ações de “mandala de impacto social”. A mandala que irá transformar a comunidade tem, segundo Lyra, 8 pontos: Moradia Digna (habitação, saneamento e urbanismo), Acesso à Saúde (com atenção para segurança alimentar); Cidadania e Cultura de Paz, Direito à Educação, Primeira Infância, Autonomia da Mulher, Cultura Esporte e Lazer (criação de espaços públicos) e Geração de renda (empregabilidade e acesso a microcrédito.

 

Projeto-piloto

O projeto-piloto, que também conta com o apoio do governo do Estado e da iniciativa privada, está sendo implementado na favela Vila Itália, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. 

No total, são 240 famílias cadastradas (634 moradores listados). Segundo dados da Gerando Falcões, 63% dessas famílias estão em situação de extrema pobreza – e o desemprego e a informalidade atingem 71% dos moradores com idade ativa.

“Esse é o nosso foguete para combater a pobreza”, disse Lyra. Entre os equipamentos que serão instalados na favela Vila Itália (e nas outras que se seguirão) está a criação de um museu da pobreza, um equipamento que conte a história pregressa da comunidade mesmo após as mudanças. Depois da Vila Itália, uma comunidade de Maceió será a próxima a abrigar o projeto.

“Minha missão é derrubar muros e construir pontes. Sou uma espécie de RH da favela, meu papel é encontrar e ajudar a desenvolver talentos. Como empreendedor social, persigo de domingo a domingo o sonho de transformar a pobreza da favela em peça de museu”, disse. “Sou um otimista realista. A sociedade, na rota que está, é inviável, mas sou otimista e sei que a solução virá de nós mesmos.”

Uma pergunta inevitável para alguém como Lyra: Sua atuação irá levá-lo para uma carreira política? Você é cobrado por isso? “Invariavelmente, acabo sendo cobrado por isso. Como cidadão, tenho críticas e as exponho, mas a minha posição política é a defesa da favela e a construção deste acordo social. Meu papel é construir essa ponte. Meu partido é a favela”, respondeu.

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