´Pobre Super-Homem´ volta aos palcos

No início da década, um filme canadense provocou desconforto por apresentar pessoas irresponsáveis que se envolviam sexualmente sem o uso de preservativos. Amor e Restos Humanos, de Denys Arcand, metaforizava o vírus da aids na figura de um serial killer e, com isso, tornava célebre o autor da peça em que foi inspirado o filme, Brad Fraser. Mais alguns anos e Fraser surge com Pobre Super-Homem, espetáculo no qual revela a solidão crônica contemporânea. Sob a direção de Sérgio Ferrara, a Companhia de Arte Degenerada continua amanhã a carreira do espetáculo, agora na Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar.A escolha não foi aleatória - Ferrara gosta de gravitar, no teatro, em torno de personagens excluídos e, com Pobre Super-Homem, pretende dar continuidade a essa proposta. "Fiquei encantado com o texto de Fraser", conta o diretor, que descobriu a obra com o ator Marco Antônio Pâmio, empolgado com uma encenação vista na Escócia. "É um texto objetivo que trata da precária vida emocional das pessoas nestes tempos molestados pela aids".A engenhosa forma com que o autor montou o texto também atraiu o diretor. Fraser utiliza a linguagem ágil dos quadrinhos e, para substituir os comentários que estão fora dos balõezinhos dos desenhos, vai usar legendas projetadas no fundo do palco. "Trata-se de um artíficio inteligente, pois, além de emendar uma cena na outra, serve também para revelar o que o personagem realmente está pensando", observa Ferrara.Apesar da proposta estimulante, o diretor enfrentou uma série de problemas. Primeiro, na definição do elenco - com exceção de Pâmio que, além de traduzir o texto, encabeça o grupo desde o início do projeto (1998), outros atores revelaram um certo incômodo com o assunto. Explicável - entre outros personagens, Pobre Super-Homem apresenta um travesti soropositivo, Shannon, disposto a fazer uma cirurgia transexual.A própria trama da peça é um desafio: Shannon (Olayr Coan) divide sua casa com David (Pâmio), um pintor gay que, para curar uma crise criativa, emprega-se como garçom em um restaurante recém-lançado. Lá, apaixona-se pelo patrão, Matt (Gustavo Haddad), que, apesar de bem-casado com Violet (Rachel Ripani), sente-se confuso com o novo tipo de relacionamento. David relaciona-se ainda com Kryla (Rosaly Papadopol), colunista de jornal que busca desesperadamente uma nova relação à custa de álcool e droga.Dos conflitos entre os personagens, Brad Fraser quer atingir o público com uma nova forma dramatúrgica. "Meu trabalho como artista é mostrar o mundo da forma que eu vejo", comenta o autor. "É secundário se as pessoas vão gostar ou não, a maioria dos artistas cria obras a partir de uma visão de vida que eles querem propagar; eu forneço às pessoas um retrato do mundo como ele realmente é".Pobre Super-Homem. Comédia dramática. De Brad Fraser. Direção Sérgio Ferrara. Duração: 100 minutos. Sexta, às 21h30; sábado, às 19h30 e 22 horas; domingo, às 20h. R$ 20(sexta e domingo); R$ 15 (primeira sessão de sábado) e R$ 25 (segunda sessão de sábado). Teatro Ruth Escobar - Sala Gil Vicente. R. dos Ingleses, 317, tel. 289-2358. Até 30/9

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