Pó de café vira arte

Uma velha tradição oriental - a leitura de xícara - foi passada de mãe para filha na família da artista plástica Ana Kalaydjian. O ritual consiste na decodificação dos grafismos criados pela borra do café, o pó molhado que sobra na xícara em que foi servida a bebida quando preparada sem coador. Esses resíduos traduziriam aspectos da vida de quem bebeu o café.Os desenhos compostos pela borra sempre encantaram a descendente de armênios, que em 1998 promoveu uma espécie de leitura coletiva de xícaras no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), processo que resultou em uma mostra de fotografias e objetos (no caso, xícaras e pires) depois mostrada no próprio museu.A partir de sábado, Ana mostra uma continuação dessa investigação da tradição oracular. Desta vez, a artista preparou seu café ancestral na Capela do Morumbi. Sobre o chão inteiro forrado de espuma branca doada por uma fábrica de tênis, a artista plástica criou um círculo de cinco metros de diâmetro de café torrado e moído. Sobre o acúmulo do pó, Ana vai despejar água quente durante os dias da exposição, que fica em cartaz até 27 de agosto.Dessa maneira, quem entrar na capela vai ser recebido pelo cheiro de café recém-passado, uma sensação de conforto reforçada pelo chão macio, que convida o espectador a tirar os sapatos para conhecer a obra alimentada pr litros de água fervida em um fogão industrial instalado no local.Mas a artista diz que não foi o universo das sensações que motivou suas opções pelos elementos que compõem a obra. "Meu trabalho está muito ligado com a pesquisa do material", conta a artista, que justamente por isso decidiu trabalhar com a matéria tão familiar. "Relutei um pouco com a idéia de utilizar o café para uma obra", conta ela, que irá expor um trabalho nessa mesma linha na sede dos Correios do Rio, mostra que abriria em outubro, mas que, por conta da itinerância carioca da Bienal dos 500 Anos, será remarcada para uma data ainda não definida.Embora ela tenha pensado na instalação antes da oportunidade de expor na capela, o grande círculo marrom parece ter sido projetado para o espaço.Além da força da forma circular, que compõe uma espécie de tríptico com as janelas da construção, o contorno das manchas formadas do chão branco pela água da mistura acompanham o padrão das paredes descascadas do local, tanto nas linhas quanto nos tons.Ana Kalaydjian. De terça a domingo, das 9h às 17h. Capela do Morumbi. Avenida Morumbi, 5.387, tel. 3772-4301. Até 27/8

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