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Luis Fernando Verissimo
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Pluto e Plutão

Estavam naquela fase que vem depois do quinto ou sexto chope, quando a língua começa a enrolar e se começa a dizer bobagens. Ou as bobagens deixam de soar como bobagem e passam a parecer coisas sérias, definitivas, os destinos da humanidade e outras profundezas Neste caso, discutiam se era Plutão ou Pluto.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2015 | 02h00

– Plutão é o planeta, Pluto é o cachorro.

– Que cachorro?

– Do Disney.

– Espera lá! – gritou alguém, para pôr ordem na discussão. – Pra começo de conversa, que Disney?

– Do desenho animado. Pluto era o cachorro do Mickey.

– Mas, afinal, o cachorro era do Disney ou do Mickey?

– Era do Mickey, desenhado pelo Disney. 

– E não era Pluto, era Plutão.

– Não! O cachorro era Pluto. 

– Plutão!

– Peraí, gente. Não vamos brigar por causa disso.

– Não, nessas coisas é preciso ser claro. Vocês não entendem? Precisamos distinguir o que é cachorro e o que é planeta. Senão, sei não.

– Eu vou dizer uma coisa. Acho que Plutão não tem nada a ver com nada.

– O cachorro?

– O planeta! Plutão não faz a menor diferença na minha vida. Tenho até uma certa raiva dele, lá longe, sendo fotografado como uma celebridade, cercado de satélites como se fosse um grande astro ou significasse alguma coisa. Nem da Via Láctea ele é. Não tem nada a ver conosco.

– Li que ele está na borda externa da Via Láctea.

– Pois então. Um suburbano. 

– Eu sempre gostei do Pluto.

– Do planeta?

– Do cachorro. Sempre achei ele simpático.

– Claro. O Pluto é um produto acabado do colonialismo cultural americano. Eles nos pegam pela simpatia e levam nosso dinheiro. O Mickey é um símbolo do capitalismo predatório. Tinha que ser um rato. Simpático, mas um rato.

– Mas o Pluto não tem nada a ver com isso.

– O cachorro?

– O planeta.

– Aliás, li que ele nem planeta é. 

– Então está encerrada a discussão. Garçom, mais uma rodada!

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