Plurais e femininas curtas

Em competição com presença forte de cineastas mulheres, Rânia faz boa figura

LUIZ ZANIN ORICCHIO, FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 06h42

Rânia, da diretora Roberta Marques, teve ótima recepção de público. Certo, é filme da terra e já conta com a galera a favor. Isso descontado, deve-se reconhecer que tem méritos. É uma história de alma feminina e dirigido com delicadeza.

A personagem-título é Rânia (Graziela Félix), garota que mora em Fortaleza e sonha virar bailarina. Vive com a mãe e seu pai é um pescador, que não quer nem ouvir falar em sonhos "disparatados", como viver no exterior ou dançar profissionalmente. Zizi é a melhor amiga de Rânia e já teve experiência fora de casa, na Itália. Trabalha numa casa noturna, onde pole dance e farra convivem com a prostituição. A terceira personagem feminina é Estela (Mariana Lima), bailarina sofisticada que já viveu em Nova York e chega a Fortaleza para fundar uma escola.

A diretora Roberta Marques, que vive entre o Brasil e a Holanda, de fato dirige o filme com mão leve. "Acho que existe hoje a possibilidade de discutirmos um cinema feminino, feito com sensibilidade feminina, sem que isso pareça meio bobo; vivemos um momento de afirmação das mulheres no mundo, o que não significa o desejo de apagar a identidade masculina, mas apenas de expressar a nossa." Há homens com alma feminina. Chico Buarque foi citado na conversa. E também Walter Salles, já que é dele uma reconhecida influência de Rânia - a do filme Terra Estrangeira, "o melhor do Waltinho, para mim", diz a diretora.

A ligação se dá pela imagem de um casco de navio encalhado, que existe de fato na costa de Fortaleza e remete à imagem do barco em Terra Estrangeira. Uma imagem de desolação, de pensamento e reavaliação, "um tempo de repouso na história", diz a diretora. É um trabalho de fato sensível, que não hesita em tocar em questões delicadas como a prostituição de menores, mas o faz com sutileza e empatia com as personagens.

Para se comprovar que a hora é das mulheres na direção, outro dos fortes concorrentes do Cine Ceará é dirigido pela mexicana Kenya Márquez, com seu longa Prazo de Validade. Um filme estranho, magnificamente fotografado, e que lembra o ambiente surrealista do maior cineasta do país, Arturo Ripstein. Há aqui, claro, um diálogo também com Luis Buñuel, que não por acaso filmou no México durante a juventude e escolheu esse país para passar seus últimos anos.

Prazo de Validade é uma comédia de humor negro, desenvolvida a partir de um acontecimento inquietante. Um rapaz, que vive com sua mãe idosa, um dia desaparece. A senhora (interpretada pela grande atriz Ana Ofelia Murguía) percorre hospitais e necrotérios atrás do corpo. Dando asas à imaginação, desconfia que sua nova vizinha, Mariana (Marisol Centeno), pode ter alguma coisa a ver com o sumiço do filho.

Dessa trama, através de uma linguagem visual rebuscada e às vezes hiper-realista, a diretora tira um retrato cruel da pequena burguesia mexicana, um ambiente de Dickens, confinando com a pobreza. Às vezes cruel, outras doce, e sempre intenso, o filme encanta os que apreciam um cinema diferente, fora dos padrões. Quem também brilha no elenco é o ator Damian Alcazar, no papel de Centeno, trambiqueiro de mil profissões, apaixonado por Mariana. Quem veio a Fortaleza representando o filme foi a jovem atriz Marisol Centeno. Ela diz que a obra provoca estranheza nos festivais por onde passa por conta do humor negro. "Para nós é muito natural", diz sorrindo, "em nosso país a festa dos mortos é uma espécie de carnaval, temos vocação para o humor negro."

/ L.O.Z.

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