Plínio Marcos suave estréia no CCSP

Plínio Marcos, o escritor mais marginal da dramaturgia brasileira, parece ter sido redescoberto. Só em São Paulo, três de suas peças estão em cartaz e outras duas têm estréia marcada para esta semana. Jesus Homem é uma delas. Montada pela primeira vez em 1981, com direção do próprio autor, o espetáculo inicia hoje curta temporada no Centro Cultural São Paulo. Enquanto Abajur Lilás, Homens de Papel, Oração Para um Pé de Chinelo e Quando as Máquinas Param, esta última estreando na sexta-feira, trazem de volta aos palcos paulistanos os típicos personagens extraídos do submundo das grandes cidades e seus diálogos cortantes, Jesus caracteriza-se pelo lirismo e pela ternura com que o texto é conduzido. A primeira pista está no elenco: no papel do protagonista, uma mulher, a atriz Vera Zimmermann. "Descobri que as palavras de Jesus continham uma subjetividade muito grande", diz Marcelo Medeiros, diretor do espetáculo. "O amor dele é feminino e esférico, diferentemente do amor do homem, que é objetivo e frontal." Com 20 anos de carreira, Vera Zimmermann agradece tal leitura. "É um presente o diretor imaginar Jesus sendo feito por uma mulher e pensar em mim", diz ela. Para fazer o papel, a atriz assistiu a diversos filmes e leu tudo que caiu em suas mãos sobre a vida do personagem. Católica não praticante, fez da Bíblia seu livro de cabeceira. "Cada dia leio um trecho da Bíblia. Deixo-a em casa, sempre aberta", conta. Além de descobrir um novo interesse - segundo ela, todos deveríamos ler o livro máximo do catolicismo -, o hábito de acompanhar a história de Jesus e seus apóstolos foi a melhor forma que encontrou para compor este que considera o mais complexo de todos os papéis que já interpretou. "Estou tentando anular os meus gestos", diz Vera. O objetivo da atriz é conseguir fazer com que eles ganhem neutralidade - a força da personagem não permite que sejam muito femininos. "Eu não posso fragilizá-lo", o que, segundo ela, está longe de ser uma maneira para esconder que Jesus está sendo interpretado por uma atriz. Além da escolha de uma mulher para ser protagonista, Medeiros incorporou à peça o mesmo tom surrealista característico de suas montagens anteriores. A verdade nua e crua de Plínio Marcos divide o palco com a busca do diretor pelo imaginário. Dois exemplos são a onisciência e a onipresença de Maria, incorporadas ao texto. A mãe de Jesus assiste e reage em todas as cenas, marcação que não está presente no original. "Dei uma explosão no que ele escreveu", explica. Pela primeira vez à frente da montagem de um texto de Plínio, Medeiros vê a febre de peças do autor em cartaz na cidade como conseqüência natural do processo iniciado com sua morte, em 1999. "Toda a classe teatral ficou comovida; bastou reler a obra dele para dar vontade de montar." Jesus Homem - Centro Cultural São Paulo, Sala Jardel Filho: Rua Vergueiro, 1.000. Tel: 3277-3611. Terça e quarta, às 20h30. R$ 10. Até 28 de março.

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