Plínio Marcos, "clássico", continua marginal

Com a morte de Plínio Marcos há exatamente um ano, perde-se grande parte da história da dramaturgia brasileira. E não é chavão. É ínfima a documentação que se tem de todo o tempo em que Plínio Marcos escreveu: a história da sua obra estava viva apenas em sua memória. Resgatar sua obra completa é uma missão quase impossível.Durante seus 40 anos de produção (1958 a 1998), ele foi o autor brasileiro mais censurado. Costumava dizer que tinha cerca de 40 livros publicados, um para cada ano de carreira, mas nos catálogos das grandes livrarias constam apenas 7 títulos, e somente três disponíveis em estoque, conforme procura feita nas livrarias Siciliano, Fnac, Cultura e Saraiva na cidade de São Paulo.As três obras encontradas são o texto teatral O Assassinato do Anão do Caralho Grande, publicado pela Geração Editorial em 1996, a coletânea de seis crônicas Figurinha Difícil, editado pela Editora Senac no mesmo ano, e a versão de Querô, uma Reportagem Maldita de 1992 da Editora Maltese e da Publisher de 1999, para seu romance de 1980.Durante 20 anos (de 75 a 95) ele próprio editou seu livros através de um gráfica do amigo Pedro Fanelli. Eram livros de bolso feitos em papel jornal, sem data de publicação ou qualquer outro registro além do texto. O próprio autor vendia as obras nas ruas do centro de São Paulo, e pagava a impressão com o dinheiro da venda. As tiragens eram pequenas e poucos deles tiveram uma cópia guardada para posteridade. "Nesta época vender na rua foi o único jeito dele alimentar os filhos, e ele guardou muito pouca coisa desta época", conta Vera Artaxo, sua última mulher.Ela ainda tentou fazer um compilação histórica enquanto ele ainda estava vivo. Em 95 ambos apresentaram o projeto para a Funarte que incluía, além da publicação de todas as suas peças, a pesquisa para contextualização de cada um dos textos escritos. "Íamos contar tudo que acontecia no País na época de cada peça, e qual tinha sido a repercussão da obra para a situação artística e política no País", lembra Vera. Foi o maior adiantamento de direitos autorais já pago no Brasil, R$ 100 mil reais para os direitos de publicação até 2007 e R$ 30 mil para o trabalho de reportagem que Vera Artaxo faria.No acordo inicial com a Funarte foram incluídas 20 peças de teatro, três musicais e mais cinco "mini-peças" que juntas comporiam um espetáculo.Clássico - Márcio de Souza, presidente da Funarte, começa agora a pensar na retomada do projeto. "Com a morte do Plínio aumenta muito a nossa responsabilidade, vamos editar a obra definitiva. Nelson Rodrigues e Plínio Marcos são os dois paradigmas da dramaturgia brasileira neste século, o tratamento com a obra de ambos tem que ficar à altura", conta.A Funarte ainda está escolhendo a pessoa que ficará responsável pela edição de Clássicos do Teatro Brasileiro sobre Plínio Marcos. A coleção já teve a obra completa de Araújo Porto Alegre. As de Nelson Rodrigues e de Coelho Neto estão em andamento. O livro de Plínio pode sair em 2002 e vai ter além dos textos originais, a "fortuna crítica" sobre as peças."A difilculdade de editar a obra é de encontrar algum estudioso que entenda as particularidades do universo do Plínio Marcos", diz Márcio. Até a noite de quinta Vera Artaxo ainda não tinha sido contactada por ele.Nos livros do autor que estão no catálogo das grandes livrarias está o mais recente. Truque dos Espelhos tem contos editados pela Editora Una em 1999, de onde foi tirada a peça Homem do Caminho encenada por Sérgio e Cláudio Mamberti no TBC a dois meses. A edição da Editora Maltese de 1992 para Teatro Maldito - Navalha na Carne e A Dança Final também foram catalogadas pelas livrarias mas nenhuma tinha exemplares no estoque. Todos eles tinham preços abaixo de R$ 20.Da época em que Plínio fazia suas próprias edições ele publicou os textos literários Na Barra do Catimbó, Novas Histórias da Barra do Catimbó, Prisioneiro de uma Canção que está sendo encenada pelo seu filho Leo Lama em São Paulo, Na Aldeia do Desconçolo e as histórias populares de A Figurinha e Soldados da minha Rua. Estes livros estão sem publicação nem previsão de serem relançados.Das peças editadas neste esquema alternativo estão 25 Homens (80), Jesus Homem(81), Madame Blavatsky(85), Balada do Palhaço(86) e a A Mancha Roxa(88). Elas ainda estão "quase" inéditas e devem sair pela Funarte. Totalmente inéditas ainda estão as peças Sob o Signo da Discoteca(79) e O Bote da Loba de 1998.

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