Playground do Pato Fu

Banda mineira grava décimo álbum com brinquedos musicais e vocais infantis

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

Toy Story. Instrumentos de brinquedo não só no disco, mas também no show, que tem estreia neste sábado no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro do Rio        

 

 

 

Houve um brinquedo, nos anos 80, chamado Genius. Era um disco gorducho com quatro botões gigantes, um de cada cor, e cuja brincadeira consistia no seguinte: ao se apertar os botões, o Genius repetia musicalmente os toques, acrescentando a eles um novo toque. O desafiante tinha de repetir o novo padrão musical, que ia se complicando. Quando o desafiante errava, o Genius "gongava" o perdedor com um toque mais grave, tipo berrante. Pois bem: em seu novo disco, Música de Brinquedo, o Pato Fu refez os solos de sax barítono do clássico Todos Estão Surdos, de Roberto Carlos, somente com os toques de erro do Genius.

O acerto pelo erro. O velho Genius é apenas um dos muitos instrumentos de brinquedo que recheiam as gavetas do Estúdio 128 Japs, em Belo Horizonte, no qual a banda mineira Pato Fu gravou no seu 10.º álbum. Carrinhos com som de ambulância, apitos, sirenes, macacos que tocam pratos, chocalhos, pianinhos, flautas de plástico, glockenspiel: o arsenal é admirável.

Após longa ausência - período que teve a estreia solo da vocalista Fernanda Takai - o Pato Fu resolveu se arriscar agora nessa aventura imponderável - um disco e um show que possam ser interessantes para crianças e para adultos, que não rompa com a tradição de renovação estética constante da banda, e que não seja passível também da catalogação fácil. Com o festivo reforço de Nina Takai, 6 anos, filha de Fernanda e de John Ulhoa (guitarrista e produtor da banda), e dos amiguinhos de Nina, Matheus, Mariana, André e João o CD é, para dizer o mínimo, provocador.

"Fizemos sons com algumas das coisas mais desafinadas do Sistema Solar. Se usar para o mal esse negócio...", ameaça John, brandindo um kazoo (instrumento de sopro que soa como um zumbido). Também o repertório poderia ser usado como máquina de dominação interplanetária nas mãos, por exemplo, de um Darth Vader sonoro: Rock and Roll Lullaby (BJ Thomas), Love me Tender (Elvis), Todos estão Surdos (de Roberto e Erasmo Carlos), Ovelha Negra (Rita Lee), Frevo Mulher (Zé Ramalho), Live and let Die (Paul e Linda McCartney), Primavera (Cassiano), Ska (Paralamas), Sonífera Ilha (Titãs), Pelo Interfone (Ritchie), My Girl (Temptations), Twiggy Twiggy (Pizzicato Five). Fernanda Takai, que já cantou em pseudo-francês e pseudo-japonês, aprendeu japonês de fato e agora canta o hit Twiggy Twiggy, do Pizzicato Five (já dividiu o palco com a cantora do grupo, Maki, no Brasil).

"Acho que é um disco de covers às avessas. Gravamos com arranjos rigorosamente iguais aos originais, mas com instrumentos de brinquedo. Se você der play nas duas versões ao mesmo tempo, elas correm com um sincronismo perfeito. A gente não gravaria covers se não fosse com essa proposta específica", explica John. A intenção é a mais básica: arrancar "um sorriso" dos adultos, quando estes reconhecerem canções que estão no seu "inconsciente afetivo", como diz o guitarrista, e também cooptar as crianças, com o timing familiar de diversão e a pulsão dos brinquedos.

Fernanda Takai conta que Love me Tender seria incluída no disco de qualquer forma, porque o baixista Ricardo Koctus adora a canção e é superfã de Elvis Presley. Mas aí eles descobriram um "pretexto" adicional para incluí-la: um levantamento demonstrou que Love me Tender era uma das preferidas pelas mães para colocar os filhos para dormir.

As crianças gravaram tudo em apenas três sessões. É de rachar o bico quando o garoto Matheus narra o discurso pacifista de Todos Estão Surdos: "A paz vive nos cabelos encorocolados!". O grupo manteve tudo como foi gravado. John conta que a grande inspiração foram o Muppet Show e o disco Snoopy"s Classics on Toys, de 1996, no qual a turma do Charlie Brown "toca" Beatles em instrumentos de brinquedo - álbum que mais ouvia com a filha.

Como será impossível fazer a turnê deste disco com as crianças envolvidas, o grupo convidou a trupe de teatro de bonecos Giramundo para fazer, com dois bonecos, o papel dos moleques. Já ensaiada, a turnê estreia neste sábado, às 19h30, no Teatro Nelson Rodrigues, no centro do Rio de Janeiro. Os garotos, por sua vez, adoraram o resultado. Fernanda conta que a filha, Nina, não cabe em si de felicidade - já contou até para caixas de supermercado sua façanha. "Sabia que eu gravei um disco?". No colégio Santa Marcelina, em Belo Horizonte, onde estuda, prometeu CDs para todo mundo.

Áudio. nome

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.