PLAYBOYS DE GARAGEM

O entardecer do The Hives, os engomados showmen do rock n' roll

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2013 | 02h07

The Hives já foi a banda preferida de todo mundo. Ou pelo menos era o que sugeria o título de uma coletânea de greatest hits, Your New Favorite Band, lançada em 2001, antes mesmo de o grupo ter um hit ou ficar famoso. Foi uma tacada típica do Hives, ilustres showmen do garage rock dos anos 2000.

Nos anos que sucederam, lançaram três discos, deram visibilidade a dois que já haviam lançado, e emplacaram um belo punhado de hits como Main Offender, Outsmarted, ou Hate to Say I Told You So, da trilha sonora de Homem-Aranha.

Chegaram ao estrelato sempre uniformizados de black-tie ou jaquetas de couro, contando histórias sobre um misterioso produtor que controlava a banda por trás das cortinas, vestindo roadies de ninjas e confabulando outras ironias que combinaram bem com o pop punk enxuto que produziam.

Não é mais a banda preferida de todo mundo, mas na turnê do quinto título de sua discografia, Lex Hives, ainda fazem um dos melhores shows de rock na praça. "A coisa mais importante é manter a forma", explica o guitarrista Nicholaus Arson, quando indagado sobre o fôlego necessário, depois de duas décadas na estrada, para desferir acordes com a energia de teenagers inconsequentes. "Temos fôlego. Temos resistência. Amamos o que fazemos", completa.

The Hives toca no terceiro dia do festival americano Lollapalooza, a ser realizado em São Paulo, nos dias 29, 30 e 31 de março. Há dez anos, estavam na crista da onda junto com The White Stripes, The Strokes, The Killers e outros sujeitos no plural, expoentes de um vago revival de garage rock que deu ao gênero seu fôlego mais comercial da década.

"O que fazíamos virou mainstream. Começamos quando o punk melódico e o hardcore - Bad Religion, entre outros - fizeram sucesso. Hardcore e punk melódico tinham começado a reinar no mundo. Era uma época em que o punk era totalmente diferente. Era mais divertido. Quando o revival de garage começou, no fim da década, estávamos bem posicionados", conta.

A questão mais óbvia para uma banda moldada em The Stooges, MC5 e outros ícones do garage rock original, é o que fazer com esse revival depois do terceiro ou quarto disco. Na visão da crítica, o Hives tem deixado a desejar. Tirou a graxa e a ferrugem ao contratar produtores descolados como Pharrell Williams para seu disco The Black and White Album, de 2007. Pecou ao abandonar completamente a ética caseira em Lex Hives, de 2012. "É difícil fazer garage rock moderno. Antigamente, era como achar uma coisa perdida, o amor de sua vida. Esse tipo de música funcionava nos anos 1990, nos anos 2000. Éramos parte do revival. Mas as coisas têm que caminhar", conta ainda Nicholaus.

Na faixa Patrolling Days, do novo disco, Lex Hives, por exemplo, ouve-se uma produção cristalina, acordes crocantes e, em cima do mix, o vocalista da banda, Peter "Howlin' Pete" Almqvist, entoando gritos que não convencem como os de Outsmarted, por exemplo.

Pergunto se o excesso de preciosismo não prejudicou a banda. "Não. Era para ser o disco mais hi fi do Hives. Agudos nítidos, graves retumbantes. Queríamos nos afastar daquele verniz analógico", explica Nicholaus. Para o roqueiro, não importa que os discos estejam se desvencilhando da estética antiga. O Hives ainda faz um dos shows mais empolgantes entre os novos veteranos do rock n' roll da década passada. Combinam fúria punk com sacadas coreográficas, como o momento em que a banda para repentinamente, no meio do show, e os músicos viram estátuas por quase dois minutos.

Por este e outros motivos, rock n' roll moderno não obedece a protocolos críticos convencionais. Dezenas de bandas como Hives, Franz Ferdinand, The Killers e Queens of The Stone Age, todos presentes na programação do Lollapalooza deste ano, podem ter estacionado em outras décadas, musicalmente. Mas, ao vivo, atraem mais público e fazem shows mais vívidos que os nomes de música eletrônica, r&b, ou hip-hop, que definem o panorama musical atual.

Duas guitarras, um baixo, uma bateria, e um cantor esgoelado, por mais que sejam batidos em disco, e que trabalhem dentro de uma receita estética com pouca margem para inovação, ainda falam a uma multidão de 70 mil com admirável força.

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