Platero e Eu em nova versão ilustrada

Clássico espanhol, que Juan Ramón Jiménez lançou em 1915, também é tema de palestra no Instituto Cervantes

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

O escritor espanhol Juan Ramón Jiménez (1881-1958) sentia-se mais à vontade entre animais e flores do que com os homens - poeta da música, da água e da flor, ele transmitiu essa paixão na que é considerada a sua maior obra, Platero e Eu (WMF Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, 296 páginas, R$ 48), de 1915, que será lançada hoje, às 19h30, no Instituto Cervantes. No mesmo local, haverá uma palestra com María de la Concepción Piñero Valverde, professora titular de Literatura Espanhola da USP, que vai destacar aspectos clássicos da obra. O evento comemora os 50 anos da fundação da Livraria Martins Fontes.

"Platero e Eu é um canto aos valores humanos, com confiança na redenção", comenta Pedro Benítez Pérez, diretor do Instituto Cervantes de São Paulo, no prefácio da edição brasileira. "Ninguém como Jiménez para fazer brotar da simplicidade e humildade os bons aromas da poesia e os gestos amáveis que aplacam a dor do mundo." Finalizado em Madri, em 1915, o livro acompanha as caminhadas do poeta ao lado do burro Platero que, na verdade, não era tão burro assim - a trajetória do animal recria o ambiente de Moguer, pequena cidade da província de Huelva, na região espanhola de Andaluzia, onde nasceu Jiménez. Se Platero é a alma de Moguer, a cidade espelha os anseios do escritor.

Franco. Vencedor do Nobel de literatura de 1956, Jiménez, fiel às suas tradições liberais, deixou a Espanha franquista em 1936, vivendo seus últimos 22 anos entre os Estados Unidos, Cuba e Porto Rico, onde morreu. Não se interessava pela Igreja tampouco pela polícia como instrumento de manutenção da ordem. O progresso, traduzido na urbanização das cidades, o incomodava - para ele, ao edificar seu espaço, o homem perdia sua sombra, sua alma. Por conta disso, era tachado de louco por muitas pessoas.

"Embora Platero e Eu seja considerado com frequência um livro para crianças, na realidade é um compêndio das vivências poéticas de um adulto extremamente sensível, que não perdeu o contato com a pureza da infância e que exalta a vida acima do sofrimento, das misérias morais, das ruínas de um povoado", comenta Benítez Pérez.

Assim também pensava Waldir Martins Fontes que, ao lado dos irmãos Walter e Waldemar, fundou a livraria que leva seu nome em 1960, em Santos. "Platero e Eu sempre foi uma das obras favoritas de meu pai. Durante anos, ele sonhou com a possibilidade de publicá-la no Brasil e, por motivos diversos, nunca chegou a fazê-lo", conta Alexandre Martins Fontes que, em homenagem ao pai, decidiu lançar uma cuidadosa versão.

Além da capa dura e da edição bilíngue, "para que o leitor tenha a oportunidade de um contato direto com a melodia e a doçura da voz do poeta", o volume conta com ilustrações de Javier Zabala, um dos mais premiados artistas espanhóis da atualidade.

PLATERO E EU

Palestra: María de la Concepción Piñero Valverde. Instituto Cervantes. Avenida Paulista, 2.439, telefone 3897-9609. Hoje, 19h30

Quem é Juan Ramón Jiménez. Escritor Espanhol

CV: Nasceu em Moguer, na Espanha, em 1881, e, ainda jovem, estudou Direito, mas não concluiu o curso, pois se interessava por poesia e pintura. Ganhou o Nobel em 1956, dois anos antes de morrer em Porto Rico.

Trecho

Olha, Platero; hoje, o canário das crianças amanheceu morto em sua gaiola de prata.

É verdade que o coitado já estava muito velho... O último inverno, bem te lembras, ele passou silencioso, com a cabeça escondida sob as penas. E, ao começar esta primavera, quando o sol transformava em jardim a casa aberta e se abriram as melhores rosas do pátio, ele também quis engalanar a vida nova e cantou: mas sua voz era quebradiça e asmática, como a voz de uma flauta rachada.

O menino maior, que cuidava dele, ao vê-lo hirto no fundo da gaiola, apressou-se em dizer, choroso: "Pois não lhe faltou nada; nem comida nem água!"

Não, não lhe faltou nada, Platero. Morreu porque sim - diria Campoamor, outro canário velho...

Platero, haverá um paraíso dos pássaros?

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