Luiza Ferraz
Isabella Nardini, fundadora da plataforma Love is in The Cloud Luiza Ferraz

Plataforma de flerte virtual promete ‘frio na barriga’ dos encontros pré-pandemia

Usuário tem direito a conhecer oito pessoas e cada conversa dura apenas cinco minutos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 14h00

Você se recorda da emoção que sentia quando conhecia uma pessoa assim, ao acaso, e se interessava por ela? Aquela sensação de ‘frio na barriga’ que só a paixão instantânea proporciona? Pois a plataforma Love is in The Cloud promete gerar toda essa espontaneidade para aqueles que participam dela. 

Na pandemia do novo coronavírus, nos distanciamos das pessoas e, ao mesmo tempo, nos pegamos inertes no quesito amoroso. Isabella Nardini, criadora do conceito, percebeu essa carência e pensou em uma maneira de resgatar essas sensações tão esquecidas na atualidade. “Meu mundo diminuiu depois da pandemia. De repente virou a minha casa e todas as pessoa que já eram meus amigos. Uma vez isolada, percebi que acordava, lia notícia todos os dias e estava acessando muita tristeza, dor. Comecei a pensar como consiguiria acessar as sensações boas de estar viva. Percebi que o ‘frio na barriga’ era uma da que mais gosto. Aquele sentimento que nasce quando a gente se coloca em risco, mas um risco bom do desconhecido, que vem com as possibilidades que a gente ainda não conhece, com as surpresas do acaso. Percebi que um jeito de acessar esse ‘frio na barriga’ era através do flerte”, lembra.

Isabella comentou sobre isso com uma amiga, Roberta Tannus, no início de abril. No fim do mesmo mês, ambas já estavam lançando a plataforma. “Essa ideia só se tornou palpável quando eu contei para ela, que comprou a ideia imediatamente e disse que era muito necessário para o mundo uma possibilidade como essa”, diz. 

Mas, para participar do Love is in The Cloud, não é possível se cadastrar ou pagar para usar. Você precisa ser convidado por alguém que já tenha experimentado a vivência. Os encontros, às cegas, ocorrem entre amigos dos amigos, em um ambiente de crescente conexão. “É uma experiência rápida e íntima de conexão e ‘frio na barriga’. Durante 1h30, 16 pessoas têm a chance de ter oito encontros com amigos de amigos, por cinco minutos cada. Para cada encontro a gente sugere uma pergunta a ser feita, por exemplo: ‘Me olha nos olhos. O que você vê?’. Os encontros só duram cinco minutos. Tem gente que fala que cinco minutos é uma eternidade para alguém que não se interessou. E para quem se interessou, fica um gostinho de quero mais”, enfatiza Isabella Nardini.

A designer Denise Saito foi uma das primeiras convidadas do Love is in The Cloud e confessa que ficou ansiosa no início. “Fiquei um pouco nervosa, mas sei gerenciar e disfarçar bem (risos). Pra mim, além de uma experiência muito nova e diferente de tudo que vivi, foi um experimento de autoconhecimento. Foi curioso perceber como eu me comportei durante os cinco minutos com cada pessoa. Entrei num lugar de querer deixar os outros à vontade, porque senti que todos estavam muito mais nervosos que eu. Depois de duas ou três conversas, entendi que não ia dar pra me apaixonar por ninguém em tão pouco tempo, então passei a ver o outro como amigo de amigos que eu estava conhecendo. Bem aquela coisa de festa quando surge alguém novo na roda. Não necessariamente vai rolar alguma coisa, mas não custa nada ser legal e tentar se conectar de verdade”, afirma.


A plataforma também já realizou encontros específicos, como aquele em que a antropóloga Monique Lemos participou, intitulado ‘mulher com mulher’. "Foi tudo! Fiquei ansiosa, curiosa, ri demais, muito mesmo, me apaixonei até por quem eu só encontrei no final, quando todo mundo abre a câmera. A coisa mais legal é que elas conseguem ‘desarmar’ todo mundo. Não é uma meta ou uma missão se apaixonar ou querer que alguém se apaixone, mas é justamente nessa leveza que tudo acontece. Terminei a sexta apaixonada por mim, porque tanta gente me quis e se divertiu e era tanto sorriso e risada que não tinha chance de eu não ser apaixonante”, avalia a pesquisadora.


Peter de Albuquerque, de 31 anos, participou do encontro ‘homem com homem’. Ele está há quatro meses sem se envolver com alguém presencialmente. “E isso me colocou em um entrave: como dar algum passo? No meu caso, também vivo sozinho. Durante essas questões internas, meu amigo comentou sobre a iniciativa e fez a indicação para que eu entrasse numa das edições do projeto, focada em LGBTQIAs. Minha experiência foi positiva e divertida. Primeiro que é preciso ter confiança no processo. É uma vivência que mistura afeto, com uma costura performática e humorada da Isabella e Roberta, que trazem uma ambiência bem amarrada, que te coloca pra rir de si e querer conversar. Músicas dos anos 1980-1990 dignas de rádio, e frases motivacionais que definiria como ‘cafona-chics’, além da presença da Isabella como uma “guru do amor”, atrás de nuvens em movimento, dando as regras do fast-dating”, vibra.

Para ele, o projeto tem uma narrativa bem pensada, trazendo o equilíbrio ideal entre adrenalina e acolhimento. “Cair numa sala e ter apenas cinco minutos para ver e ser visto te coloca num lugar de fazer escolhas: como se resumir? Trago fatores-chave da minha história ou trago aspectos que me definem hoje, como meu humor e qual vinho prefiro? É recomendado que tenhamos objeto que nos represente sempre ao lado para ‘quebra-gelos’, o que funciona, e na tela surge um card com uma primeira pergunta sugerida,  constrangedora na medida, o que te coloca para rir com um estranho, e já vale à pena a partir desse ponto”, garante. 


A curadoria de pessoas no Love is in The Cloud é diversa com idades e origens, o que pode ser positivo para se abrir a novas possibilidades. Também há um recorte regional, de cidade, o que ajuda a conhecer alguem possível, ao alcance. “Frio na barriga digníssimo e que movimentou uma sexta à noite quase como em velhos tempos”, conclui Peter.

Na avaliação da psicóloga Desirée Cassado, mestre pela Universidade de São Paulo e especialista em terapias Contextuais, a experiência de encontro, da forma como ela tem sido feita através dos apps de relacionamento tradicionais, está saturada: “Já houve um tempo - alguém se lembra? - em que dar um ‘match’ e começar uma conversa íntima com um estranho gerava ansiedade e ‘borboletas na barriga’. Mas nós nos adaptamos, acostumamos e paramos de dedicar a energia necessária para construir uma experiência - através desse tipo de conexão - que seja interessante. Mas não nos esqueçamos que o formato é novo - e muito interessante -, mas as pessoas são as mesmas. Depois do primeiro encontro às cegas, voltaremos pra antiga questão: para começar uma relação é preciso dedicação, coragem, flexibilidade e um bocado de resistência à frustração, independente dos meios que usamos para nos encontrar”.

Isabella Nardini, fundadora da Love is in The Cloud, afirma que a intenção não é a construção de relação com o outro, mas resgatar a sensação de leveza, brincadeira e abertura de possibilidades. “Sensações de surpresa e da graça do desconhecido. É sobre o que pode acontecer ali e não o que vem depois, porque o que vem depois é surpresa. Os aplicativos de relacionamento trazem com muita força esse modo que, uma vez que aprendemos a viver em telas de ‘sim’ ou ‘não’ para uma pessoa, aquilo dita seu comportamento. Então, vou paquerar essa pessoa só depois que ela me deu um aval, me deu um sim. E nesse mundo de sim ou não, a verdade é que a vida é muito mais complexa do que isso. Se eu dou sim para uma pessoa hoje, não quer dizer que vou construir alguma coisa com ela. Só que a gente ficou acostumado em operar nesse lugar seguro, que só vou falar com alguém se ele me deu esse sim e todo o mistério e acaso não têm mais espaço na nossa vida. Por isso, resgatamos o risco da paquera”, ressalta. 

Denise Saito, uma das convidadas dos encontros, conta que começou com as expectativas bem baixas porque nunca curtiu app de paquera. “Fui mais pela vivência mesmo e para passar por algo diferente no meio desse marasmo. Então, superou minhas expectativas porque a experiência traz sensações que têm sido raras nos dias de hoje e me diverti muito. Sem contar que sim, curti uma pessoa e ela me curtiu de volta, então, rolou um ‘match’”, comemora a designer.

Lidar com a emoção de maneira surpreendente, a adrenalina e ‘frio na barriga’ propostos pela plataforma Love is in The Cloud parece ser uma boa tentativa de fazer com que os indivíduos resgatem sentimentos pré-pandemia ou saiam das interações ‘robotizadas’ dos atuais aplicativos de relacionamento. 

 

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Pandemia do novo coronavírus revela novas formas de amor

Namoro à distância ou casamentos antecipados: os efeitos da quarentena na vida dos casais

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 07h51

 

Um relacionamento vivido como em um parque de diversões. Essa é a definição de namoro de Ricardo Assumpção Fernandes, de 47 anos, com a jornalista Lídice Leão, 50. Eles estão juntos há três anos. “Começamos a namorar em outubro de 2017, mais precisamente no dia 12. Na primeira vez que nos vimos, a conversa foi tão leve e gostosa como uma brincadeira de criança. Desde então, vivemos num parque de diversões. Vemos paisagens na roda gigante, o circo é uma festa de cores, na montanha russa seguramos as mãos um do outro e atravessamos os altos e baixos”, descreve Ricardo.

Há mais de dois meses, eles estão separados por causa da pandemia do novo coronavírus. “Quando começou a pandemia, logo decidimos que ficaríamos fisicamente separados, cada um na sua casa, já que ele precisava preservar os pais idosos e eu precisava ficar com a minha mãe, também idosa. A decisão foi lúcida e consensual, pois cada um entendeu o lado do outro, de cuidar e proteger a saúde dos pais”, afirma Lídice. 

Apesar da distância imposta, Ricardo conta que eles mantêm contato diário: “A saudade é grande. Mas, embora não nos encontremos fisicamente, nos falamos umas seis ou sete vezes ao dia, por telefone ou chamada de vídeo. Não sobra tempo para a solidão, a não ser à noite, na hora de dormir”. Lídice concorda: “É claro que a falta do contato físico pesa, à noite a saudade aperta. É a parte mais difícil. Mas decidimos focar nas coisas boas, na presença possível e não na falta”. 

A jornalista fala de uma prática adotada por eles e que pode servir de exemplo para outros casais. “Aos finais de semana ‘bebemos juntos’, cada um na sua casa, mas brindamos e damos risadas! Um hábito muito gostoso que adquirimos durante a quarentena é lermos trechos de livros um para o outro. Como passávamos muito tempo juntos, antes da pandemia, e líamos muito, comentávamos sobre livros pessoalmente, mantivemos esse hábito gostoso. Então, quanto estou lendo um trecho de livro que sei que ele gostaria, ligo pra ele, leio e comentamos sobre. Ele também faz isso”, diz.

VEJA TAMBÉM: Casais que ainda nos fazem acreditar no amor

Outro casal que foi afastado por causa da pandemia de covid-19 foi Gabriel de Mello Tieppo, de 25 anos e Gabriela Noce, de 27. Há um ano e três meses, eles se conheceram em um aplicativo de relacionamento amoroso. “Eu fui fazer um curso de uma semana perto da casa do meu pai e aproveitei para ficar esses dias lá. Aí encontrei ela em um app e demos match. Marcamos de sair no final da semana e, durante a conversa online, descobrimos que estávamos a três minutos a pé um do outro. Marcamos o primeiro encontro em uma praça que tem ali pertinho. Virou namoro. Eu ia quase todo final de semana para o meu pai antes de conhecê-la. E ela estava esse tempo todo ali do lado”, lembra Gabriel. 

A separação no início da pandemia foi repentina, como conta Gabriela: “Foi tudo muito rápido, a gente nem se despediu. De início, combinamos de não nos encontrarmos por uma ou duas semanas, a gente achava que as coisas iriam amenizar. Hoje já são mais de 80 dias longe. Depois da segunda semana isolada em São Paulo, resolvi voltar para Santa Catarina e ficar mais próxima da minha família. Entendemos que aquela era a melhor decisão no momento e que nosso contato continuaria se dando por meio da internet”.

Eles procuram não ficar o tempo todo no celular, apesar de sempre trocarem áudios no WhatsApp e chamadas de vídeo. “A nossa moda do momento é ver série juntos. Estamos vendo Dark ao mesmo tempo e comentando "ao vivo" via áudio no WhatsApp. Ajuda a aproximar a gente”, afirma Gabriel. Ambos procuram fazer planos para o futuro para dar uma perspectiva mais positiva sobre os dias que virão.

Para alguns casais, a quarentena serviu para adiantar planos de união. Foi assim com Anamaria Cristina Souza Conde e André Cremasco Alves que moram em Valinhos, no interior paulista. Eles namoram desde novembro de 2018 e não tinham planos de se casar rapidamente, mas a pandemia acelerou as coisas. “Essa questão de a gente morar junto aconteceu por causa da pandemia. A gente nem decidiu, a coisa foi acontecendo. E uniu mais a gente por conta disso mesmo: ele passar mais tempo em casa e eu também em home office desde o dia 23 de março”, explica Anamaria. 

Ela relata que os pais de André estão no grupo de risco e, como ele teve de continuar trabalhando, dividir a casa com Anamaria seria uma forma de protegê-los. “Os pais dele são mais de 60 anos, são hipertensos e estão super cumprindo a quarentena desde o primeiro dia. Como o André continuou trabalhando, porque o ramo dele não fechou, ficou com medo de continuar indo pra casa dele”, afirma. 

Assista ao vídeo:

Anamaria conta que ela e André se conheceram na adolescência, pois ele era irmão de um amigo: “A gente se reencontrou em rede social. Estudei minha infância toda com o irmão dele. Reconheci ele pelo apelido, que todo mundo chamava de Pompeu. E aí começamos a conversar, fomos no cinema, conversamos e não rolou nada. Ele havia acabado de romper um namoro. Depois ele ainda conheceu uma outra pessoa e me afastei por uns quatro meses. E então a gente se reaproximou”. O que a pandemia uniu, o homem não separa.

Para fazer uma análise sobre essas novas formas de amor, tanto a distância como a antecipação de planos de casamento, a reportagem do E+ entrevistou o renomado psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschnir, que trabalha há 40 anos com casais. 

- A pandemia do novo coronavírus revelou uma parte da vida dos casais que eles não imaginavam que existia? Poderia falar mais sobre isso com sua experiência em clínica?

Sem dúvida revelou! Aliás, podemos dizer nesse aspecto de ‘revelar’, aparecer do negativo de uma foto para a imagem visível, identificável, tanto os aspectos positivos como negativos. Casais que não tinham a oportunidade de convívio tão longo e diário passam a enxergar maneiras diferentes de estarem juntos, criando condições tanto para aproximarem-se, serem mais íntimos e cooperativos um com o outro, como para revelar e intensificar as intolerâncias. O que antes era impossível fazerem juntos, seja por falta de espaço na agenda ou no estilo de vida, seja por dependerem tanto das próprias necessidades individuais que tiravam esse tempo para estarem um com o outro. Mas aí vem um outro ponto: alguns se dão conta de que o outro o incomoda tanto, que o distanciamento salvava a relação.

- Como avalia essa convivência compulsória para alguns casais?

Esse compulsório vem de fora, do que é recomendado e ameaçado como o que é arriscado e vai atingir cada um, no caso da pandemia. Atinge a movimentação e restringe os outros relacionamentos que por mais online que sejam, com o seu parceiro é que terão que passar mais tempo. E sem intervalos. Como também eram válvulas de escape para uns e agora oportunidade para investir mais, se existe a chance de “aumentar o patrimônio amoroso”, estarão enriquecendo a relação para os próximos tempos.

- E o que dizer de outros que acabaram ‘adiantando’ uma convivência, que estavam para se casar em meses e decidiram morar juntos agora?

É isso mesmo, nem serve essa observação para quem estava prestes a se casar. Haviam os que estavam levando o relacionamento ainda distantes geograficamente, cada um na sua casa, e mudam-se para uma delas seja pelo conforto e um ambiente melhor, seja pelos riscos de contaminação. Por detrás disso há também um rompimento de barreiras para que o relacionamento tome novos rumos. Tenho pacientes que nesse “adiantamento” sentem-se num casamento compulsório e outros que experienciam o rompimento de barreiras que provinham bastante do medo de se comprometerem em um casamento.

- E o namoro a distância: é possível manter a paixão com essa imprevisibilidade em relação ao tempo de duração da pandemia?

Esse tema de manter paixão em uma relação mais longa e estável como em um casamento, ou das que subsistiam pelas distâncias e impossibilidades, tipo Romeu e Julieta, causando sofrimento, agora a pandemia traz um novo processo para os dois. Se esse novo estado provocar os melhores sentimentos de cada um para com o outro, pode sim haver um resgate de paixão que tinha sido esquecido ou misturado com o excesso de atividades que tinham que cumprir. A revalorização do vínculo amoroso, além de curar feridas, redimensiona o sentido da vida de estarem juntos. Acho que a falta de “distração”, observada no consumo excessivo tanto do trabalho como de idas para o mundo exterior, cria todas as possibilidades de os casais perceberem o valor desse relacionamento. Sem tanto restaurante, festas, viagens, a vida de cada um chama para novos olhares para si próprio e necessariamente para o casamento ou o namoro que estão envolvidos.

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