Plantas e mesas como Libelo político

Colombiana enfatiza a necessidade de se tratar da violência e da política na arte que rejeita a representação

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h10

Nascida em Bogotá, onde vive e trabalha, Doris Salcedo quer ser apenas identificada como "artista de uma zona periférica", trazendo para sua obra o testemunho da "violência política" e da fragilidade da vida.

Numa pausa da montagem de sua instalação Plegaria Muda, em que 120 mesas se transformam, à luz do dia, na imagem de um cemitério de mortos anônimos de seu país - e de qualquer cidade contemporânea - em duas salas da Estação Pinacoteca, Doris Salcedo falou sobre sua obra e seus conceitos.

Como foi a concepção da instalação Plegaria Muda? Poderia explicar sua relação específica com a Colômbia?

É um processo de muitos anos. Em 2004, comecei a investigar o que ocorria nas zonas do Sudeste de Los Angeles, onde havia muitos jovens mortos nas ruas. Isso implicou uma mudança muito grande em minha maneira de trabalhar. Sempre trabalhei pensando na vítima pura, no conceito de vítima que temos desde o Holocausto. E acredito que a cidade contemporânea, em que vivemos, nos obriga a mudar o conceito de vítima, que exerce, simultaneamente, dois papéis: vítima e vitimário. Ao mesmo tempo, as mortes anônimas se transformam em cifras. Pareceu-me mais alarmante, quando comecei essa investigação, ver que existia uma zona fluida, que ocorre em zonas marginais, onde a vida é mais difícil, denominada por muitos autores como zonas de "morte social". Essa morte social, geralmente, antecede a morte violenta e essa é a origem da investigação. Mas ela tem, digamos, um capítulo colombiano terrível. O governo do presidente (Álvaro) Uribe (2002-2010) começa em 2003 a dar prêmios a militares se eles apresentassem alto número de mortos guerrilheiros. Como não podiam dar números reais, eles começaram a ir às zonas marginais das cidades, para oferecer trabalho a jovens desempregados, mas, na verdade, os levava a lugares remotos e os assassinava. Não temos uma cifra exata, mas é ao redor de 3 mil garotos mortos nessas condições. É um aspecto específico da sociedade colombiana, mais brutal do que em outras cidades, mas essa situação ocorre e também pode se relacionar aos mortos das favelas daqui.

Como pensou os elementos dessa Prece Muda - mesas de madeira, a terra e pequenas mudas de plantas?

Penso que a arte, em geral, nomeia elementos ou objetos que são importantes para uma determinada sociedade em um determinado momento histórico. Uma vez que a arte os assinala, os representa, a sociedade os absorve. Sendo uma escultora, que trabalha com objetos, vivendo numa sociedade como a colombiana, país das mortes ocultas, penso que o mais importante para definir nossa sociedade era a fossa comum. É um elemento que nos obriga a olhar onde não queremos olhar. No início do processo da obra, comecei a trabalhar com as mães desses jovens mortos na Colômbia, no processo de busca de seus filhos porque todas as minhas obras têm uma vítima real como base. Então, para mim, uma série de eventos como assassinatos, a dor das famílias, a tentativa por refazer a vida, todos elementos que são consecutivos, a obra de arte os apresenta de forma simultânea, com uma só imagem. Por isso está a fossa, a mesa na qual nos sentamos em família ou para conversar, como elemento que aglutina pessoas. Mas na obra ela me interessava como algo disfuncional. Além desses objetos, se cria um espaço que está além da vida. A mesa, o sentido que tinha, subverte-se, e aparece um mundo à parte, um lugar de memória. Com outro tempo, intervalos e o sentido que a mesa tinha no mundo real se suspende. E junta-se com a terra e com a vida das plantas, uma vida muito frágil, da qual temos que cuidar, para se criar um sentido novo.

Sua linha de trabalho é muito específica, social. Acredita ser necessário a arte falar, neste momento, diretamente de questões tão políticas?

Eu sou uma artista política. Sem dúvida. E me interessa a violência política. Só que a arte está sempre relacionada com o político e com o social. O artista está sempre abrindo espaços novos, rompendo os limites, e esse ato é político, mesmo que uma obra seja abstrata.

Mas as imagens que cria são fortes e diretas. É importante impactar?

No mundo da arte, as pessoas não falam de representação, a representação se converteu numa palavra suja, que não se usa. Como representar a violência? (Jorge Luis) Borges (escritor) diz que a arte é a iminência de um evento que nunca ocorre, a iminência suspensa. Sentimos que vai ocorrer, mas não ocorre. Creio que é a única forma de representar a violência sem violência. Sabemos que o derramamento de sangue está em todo lugar, que tudo ocorre lá fora, está na realidade, mas na arte não. Trabalhamos termos muito delicados. Há uma vítima e uma experiência vital, que quero honrar com minha obra, mas, nesse momento, não posso tocar na vítima, tenho que ficar um pouco distante e borrar essa experiência específica. Tem que manter uma distância. O filósofo Emmanuel Ignacio dizia que a arte é uma profecia de linguagem. Que freia antes de chegar. Por isso, creio que a arte pode ter um elemento específico e fazer referência a algo eterno. Mas ser radical não me interessa. A modernidade tentou ser radical, não somente na arte. Por isso ocorreu a radicalidade do Holocausto, que atravessa o humano. Creio que penso com delicadeza no já ocorrido. Não temos responsabilidade em apenas dar forma ao futuro, mas com o passado, como contamos esse passado. Ao contar de uma maneira diferente, extraímos experiência para hoje.

São 120 mesas e o caminho entre elas é difícil de percorrer. Há uma repetição do elemento, parte da carga de uma obra que fala da morte em cifras?

As mesas têm tamanhos diferentes, parecidos. É a morte numérica ocultada. Me interessa que cada uma seja uma tumba fechada, como indicativo de que um tipo de ritual funerário ocorreu. Precário em seus materiais, porque as vítimas eram precárias, anônimas. A Colômbia é um país onde não se sepultam os mortos, ou como no México, com a exposição dos cadáveres. A repetição obsessiva da mesma imagem indica o excesso, o desperdício de vidas.

Há um interesse crescente pela arte latino-americana no mercado da arte. Como se vê nesse contexto?

Me desagrada ser colocada em qualquer gueto. Se tivesse que escolher um, escolheria ser identificada como uma artista de zona periférica, de catástrofe. A Colômbia é subdesenvolvida, brutal, violenta, pouco sofisticada, tudo o que é negativo define essa zona. Por outro lado, creio que uma realidade tão radical gera uma resposta. É com essa urgência que trabalho.

Mas como é sua relação com o mercado?

O mercado não me interessa, está muito supervalorizado. Penso que para se ter alguma capacidade de dizer o que se pensa, é necessário estar dentro do sistema. Se você está fora, nunca o afeta, não conta. Quero operar dentro do sistema para rompê-lo.

Qual a estratégia, enfim?

Apresentando obras que são difíceis, de vender também. Quer viver na sala de sua casa com uma tumba? É muito difícil também para as instituições adquirirem minhas obras. É tudo uma ficção. A realidade é outra. A dificuldade para construir e pensar uma obra como essa é a realidade. É uma sociedade que busca criar celebridades estúpidas. Por isso digo não à foto. Tem que ter uma certa coerência.

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