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Fábio Porchat
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Plágio

Outro dia fui acusado de plágio. Disseram que um vídeo do Porta dos Fundos que eu escrevi era descaradamente igual a um outro vídeo que já estava no YouTube desde 2006. Fui ver o tal outro vídeo pra entender a razão da acusação e qual não foi a minha surpresa? Ele é descaradamente igual. Tudo. Detalhes, closes, cenas, diálogos, personagens... Tudo muito, muito parecido. Não tem defesa, não tem nem como eu alegar que eu não copiei o vídeo na cara dura de tão semelhante. A não ser, por um simples detalhe: eu não copiei.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h12

Não dá pra acreditar. Eu, se fosse o autor do vídeo de 2006, não teria dúvidas. Plágio. Ficaria puto, ia querer retratação e iria me sentir injustiçado. E com razão. Ninguém nunca ia me tirar da cabeça que um idiota pegou a minha ideia e reproduziu igualzinha em seu canal de humor. E esse é exatamente o meu único argumento: eu não seria tão idiota de copiar um vídeo que já está no YouTube e lançar um exatamente igual no YouTube. Ainda mais num canal de tanta visibilidade como o Porta. Hoje em dia, trinta segundos depois de você lançar qualquer coisa na internet, alguém já rastreou tudo que se assemelhe longinquamente àquilo, agora, imagine se você repetir ipsis litteris essa qualquer coisa. Nós já lançamos mais de cento e oitenta vídeos, por que um? Um!? Pra quê?

É possível as pessoas terem as mesmas ideias? É. Ideias estão no ar. Eu me lembro de um caso muito curioso de um amigo meu, Gabriel, que estava numa vídeo locadora escolhendo um filme pra sábado a noite, quando, de repente, ele teve um insight: por que não lançar uma locadora de livros, onde pessoas vinham e alugavam livros? A gente ia ficar rico! Eu falei: Gabriel, essa ideia já existe, chama-se biblioteca e é de graça. Ele, ali, na minha frente, genuinamente, teve a brilhante ideia da biblioteca, dois mil anos depois de Alexandria!

Claro que ele sabia da existência do advento da biblioteca, mas o raciocínio lógico dele foi por um outro caminho. Isso acontece também. Você assiste a uma cena e dez anos depois você "tem a ideia" daquela cena. Lá no Porta, com certeza, na reunião de texto, assim que você der essa "ideia", alguém dirá a temida frase: já vi isso em algum lugar. A minha ideia ninguém tinha visto em nenhum lugar. Nem eu. Mas eu não estou escrevendo isso para me justificar de nada, mas sim porque sempre me interessei muito por essa premissa das ideias que estão no ar.

Quem pegar, pegou. Quem não pegar, perdeu. Um amigo meu, roteirista, diz que prefere não assistir nada de comédia para não se frustrar vendo serem usadas ideias que ele, um dia, poderia vir a ter. Eu gosto de assistir tudo. Me inspira. Tento ter novas ideias trazendo comigo uma bagagem cômica que me dê respaldo. Mas, sabendo que na natureza nada se cria, tudo se transforma, tenho certeza, e torço para que minhas piadas possam também inspirar alguém a criar mais piadas. E assim seguirá rindo a humanidade.

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