Pixografia ganha galeria de arte em favela de São Paulo

O barraco onde vive Ricardo Farias de Oliveira, de 24 anos, o Ricardinho, no perigoso bairro do Capão Redondo, no extremo sul de São Paulo, virou sede de um novo movimento: a pixografia. Evolução da suja pichação, a pixografia cada vez mais se aproxima do grafite e suscita debates sobre sua afirmação como arte e função social. Além de evitar a debandada de crianças e jovens para o crime, ela colore as ruas da cidade.Ricardinho criou uma espécie de galeria de arte que monta e desmonta em sua própria casa. Tudo o que se vê são cores, muitas cores. Ele só trabalha com a pixografia porque um dia foi pichador. Isso começa a ser muito comum.Na verdade, estranho é fazer arte de rua sem antes ter escalado a "selva de pedra", como definiu Wagner Santana Lucas, de 31 anos, que, junto com Ricardinho e Ricardo Fernandes Lopes, o Cacau, de 26 anos, teve a idéia de montar a galeria de arte no Capão. "O cara vem aqui e pensa: só tem bandido. Tem bandido de gravata também em Brasília. Queremos mostrar que aqui tem muita coisa boa", explica Wagner. Cacau completa: "Não queremos exibir nossa arte na Avenida Paulista, o pessoal que mora aqui nunca foi pra lá, não tem condição de chegar lá".Vibração legalChamada por seus criadores de "Ateliê dos Anos 30", a galeria fica num barraco sem número ou placa indicando o que existe lá dentro. Qualquer morador pode entrar? "Não", responde Wagner prontamente. "Quem se interessa, a gente explica o que é, deixa ver. Esse trabalho é uma coisa pessoal nossa, a gente só chama quem a gente acha que tem uma vibração legal". Mas eles fazem eventos em becos e vielas do Capão abertos para o público, ocasião em que realizam suas obras ao mesmo tempo em que oferecem à comunidade a oportunidade de vivenciar a arte na teoria e na prática.No chão, ladrilhos e cimento aparente. Praticamente todo lugar do barraco está preenchido por quadros e grafites nas paredes ou obras como um abajur de casca de côco e fio de telefone. Feitos com tinta de spray, pirógrafo, papel celofane e outros materiais, os trabalhos apresentam, em grande parte, tons verdes e azuis, mas não falta diversidade. A série de quatro paisagens criada por Ricardinho em blocos de porcelana lembra pinturas impressionistas; um quadro, também de sua autoria, é, segundo ele mesmo, psicodélico.Ricardinho aponta o quadro, ainda inacabado, em que pintou a bandeira do Brasil, com a frase "as letras que a rua criou, bem cedo a cidade aceitou e usou". Em muitos trabalhos ele assina "Ricardo com amor", e explica o motivo: "É pra todo mundo ver que tem que ter, tem que ter amor. É tanta coisa ruim que a gente vive e passa. A expressão que eu mando é essa". Tudo isso ao som de Paulinho da Viola no vinil. Pichação x grafiteWagner, como bem caracterizou Cacau, é quem faz o "merchandising" do trio, e explica que estão expostos trabalhos que ganharam de presente de amigos de fora do País - como a miniatura da pintura que um austríaco fez em uma parede de 33 metros - mas deixa claro que quase todas as obras vêm de grafiteiros que foram um dia pichadores. Afinal, qual é a diferença entre grafite e pichação? "Na verdade, nenhuma, é tudo a mesma coisa, mas pichação é vista como uma coisa ruim, grafite como arte", conta Wagner, acrescentando que ainda existe muito preconceito, principalmente por parte da Prefeitura, com relação aos grafiteiros. A pergunta que não quer calar: dá pra ganhar a vida assim? "Dá, a gente tira uns R$ 50 por dia pra cada um, vendendo nossa arte principalmente em camisetas, bonés, essas coisas. Nem luxo nem lixo, a gente só goza no final", brinca Wagner, parafraseando Rita Lee. Grande parte do orçamento vem da venda desses objetos em eventos como a participação em palestra promovida por uma faculdade de São Paulo sobre design de rua. Wagner não quis contar qual é a média do preço dos quadros - "cada um dá o que pode, vai do coração da pessoa" - mas revelou que um francês ofereceu 20 euros por cada camiseta (e levou 100).Estrangeiros chegam até eles por indicação de amigos e muitas vezes por intermédio da Fundação Cafu, localizada nas proximidades, que apóia os grafiteiros divulgando o trabalho deles. A fundação, criada pelo capitão da seleção pentacampeã Cafu, é uma entidade sem fins lucrativos que propõe um sistema alternativo de educação para crianças e jovens, com aulas de pintura e atividades esportivas, entre outras.Olho da RuaWagner, Ricardinho e Cacau são unânimes em dizer que o desejo deles é utilizar a arte como um canal de expressão e não apenas uma forma de autopromoção ou fonte de renda. Recentemente conseguiram patrocínio de R$ 17 mil do "Vai", projeto de incentivo à cultura lançado pela Prefeitura, para a construção de uma escola na comunidade, que já tem nome, "Olho da Rua". Os três e outros artistas convidados vão dar aulas para as crianças, como opção para fugir da violência como meio de vida."Sair da pichação e ir para o grafite é difícil porque pelo caminho errado as coisas vêm mais rápido. O negócio é que a gente tem mulher, filho, não tem um centavo, o filho pede isso, pede aquilo, aí a gente vai pichar pra tirar o estresse. É igual um esporte. Se você é rico, pega uma corda e vai escalar uma montanha. A gente escala prédio", diz Ricardinho. A escola contará com a ajuda do artista plástico Rui Amaral, de 45 anos, amigo e incentivador dos artistas. Formado em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Rui fez parte da chamada geração 80, considerada uma das maiores expoentes do grafite brasileiro. É dele o imenso mural de quase 1.000 metros quadrados que fica no "buraco da Paulista", entre as avenidas Doutor Arnaldo e Paulista. Verde e o azulRui vai participar de um grande evento em um beco do Capão que está sendo organizado por Wagner. "Vamos chamar 150 artistas e deve acontecer daqui há dois meses", diz Wagner. Entre eles estarão os Gêmeos, como preferem ser chamados os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, que acabam de expor trabalhos em uma galeria de Nova York.Os projetos não param de nascer. Wagner parece ter sempre uma idéia mirabolante em mente. "Você perguntou por que usamos muito o verde e o azul. É porque nós amamos esse País. Tem um monte de gente que reclama, outro dia li essa frase no trabalho de um pichador: ´o Brasil já era´. E pensei ´já era nada, o Brasil tá sendo´".

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