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Pitanga, será que aquele Brasil existiu ou imaginamos tudo?

A volta da 4.ª Flibonito teve atmosfera de filme de Resnais, ‘O Ano Passado em Marienbad’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

20 de julho de 2018 | 02h00

Camila e Antonio Pitanga saíram do cinema onde tinha sido exibido o documentário sobre ele, que Camila e Beto Brant dirigiram, e seguiram para o Espaço Vasto Mundo. Ia começar uma das conversas mais instigantes da 4.ª Flibonito, Feira Literária de Bonito, Mato Grosso do Sul. O sol caindo, final de tarde de sábado. Eu tinha chegado há dois minutos, percorrera três horas de estrada saindo de Campo Grande. Valeu. No caminho, meu almoço foi uma chipa, um café de coador, docíssimo, e um pedaço de rapadura com laranja, caseira.

Na Flibonito, todos eram recebidos por Ruberval Cunha, repentista inexaurível, bem-humorado assim, de forma original, apresentava no palco os convidados. A feira deste ano, organizada por Carlos Porto, teve quatro dias intensos. Os homenageados foram Carlos Drummond de Andrade e Ulisses Serra, cronista e fundador da Academia de Letras de Mato Grosso do Sul. Tudo acontecia na Praça da Liberdade, com bandeiras, banners e tecidos caindo das árvores, local que lembrava a grande praça de Paraty. Humberto Werneck falou das muitas vozes de Drummond, enquanto João Anzanello Carrascoza (chego, ele está saindo; ele chega, estou partindo) trouxe seu Diário de Coincidências; Ademir Assunção rolou entre Poesia e Oralidade, e vimos espetáculos de mamulengos com Chico Simões, concertos de viola, rodas de conversa, dedos de prosa, falas sobre a formação do leitor, oficina de livros artesanais, show de Elisa Lucinda, exibição dos filmes O Fazendeiro do Ar e O Último Poema, ambos sobre Drummond. Werneck se regalou ainda que inquieto entre duas palavras, Gudunha ou Gadanha. Em um momento em que o governo cancela verbas de educação e cultura, poucos têm se atrevido a montar festivais. Bonito resistiu.

Fazia anos que eu não via uma conversa tão estimulante entre dois artistas, os Pitangas. Antonio disse que a filha o “obrigou” (mas ele pareceu gostar) a revirar o baú de sua vida e daí resultou um filme imperdível que fala da história do Brasil, do cinema, cinema novo, da cultura na Bahia, de Glauber, da música, da política e muito de Brasil, de uma geração que muito acreditou e viveu sob a ditadura militar. Belo filme, emocionante. Camila é articuladíssima, grande no debate no palco, assim como é na tevê e no cinema. Firme nas posições sobre mulher, racismo, política. Apaixonantes os dois. Conheci Antonio em Salvador em 1961, durante as filmagens de O Pagador de Promessas, em um dia que Glauber Rocha foi pedir a Anselmo Duarte uma lata de filme para terminar um documentário. Anselmo deu. Aquele país em que Pitanga e eu – temos dois anos de diferença – vivemos é hoje um passado remoto, talvez tenhamos imaginado que era daquele jeito. Obrigado Camila e Beto Brant por esse filme.

Pena que essas viagens são bate e volta, porque Bonito é especial, você pode seguir a trilha das águas cristalinas, ver a Nascente Azul, a Barra do Sucuri, flutuar em águas frescas, pedalar em meio à mata, conhecer o Parque das Cachoeiras, entrar no cenário fantástico das cavernas, fazer arvorismo, rapel, boia cross, penetrar no Abismo Anhumas ou passear de bote no Rio Formoso. Não fiz nada, soube disso porque Maria Adélia Menegazzo, curadora da Flibonito, e Thereza Hilcar, assessora de imprensa, me contaram. Meu lado aventureiro há décadas ficou em algum lugar, nunca fui procurar. Em compensação, jantei na Casa do João. Você entra e é envolvido pelo perfume que vem da cozinha comandada por Felipe, filho do João, a preparar peixes, como o pirarucu com molho à base de gengibre e leite de coco. Ou uma traíra, servida inteira, sem espinhas, no estilo pantaneiro. Sendo que ainda há a pirarara, nome que traduzido quer dizer peixe-papagaio. Felipe preparou-me um pirarucu da chef Léo, com arroz, farofa de alho e chips de banana. Mas havia ainda moquecas de peixe de água doce e jacaré. Declinei o jacaré, ainda que curiosíssimo. Na hora da sobremesa, João, homem amável, doce, orgulhoso de sua casa, me trouxe um doce de leite com sorvete de jaracatiá, fruta rara, saborosa, difícil de ser manipulada, também conhecida como mamão-bravo.

A volta teve atmosfera de filme de Alan Resnais, O Ano Passado em Marienbad, ou de O Processo, de Orson Welles, baseado em Kafka, para não dizer de O Iluminado, de Kubrick. Descemos em Viracopos, que eu não conhecia. Domingo, silêncio total. Mergulhamos em corredores quilométricos, grand canyons com esteiras rolantes e sem janelas, sem indicações, nada. De um corredor para o outro, trechos intermináveis, e assim andamos, andamos, depois Antonio e Camila tiveram de voltar para apanhar uma mala, nos perdemos, voltei ao mesmo lugar, apanhei um elevador, saí na terra do nada, prossegui, via uma luz ao longe, ia na direção dela, nenhum funcionário, balcão, nada, se Beto Brant estivesse ali faria um filme. As alas de Viracopos vão do nada a lugar nenhum. Enfim, não sei quanto tempo se passou, não havia relógios, ampulhetas, nada que indicasse o tempo. Finalmente me encontrei em um recinto em que estavam nossas malas e fui procurar um ônibus para São Paulo, mas era domingo, tive de ficar mais duas horas no nada, esperando.

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PS: Tudo deu certo no final. No avião, sentado ao lado de Camila Pitanga, comemos biscoitos de polvilho em silêncio por meia hora.

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