Pista em chamas no Joia

Luke Jenner e o Rapture contagiam com dance punk de alta pressão

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h09

É curioso presenciar a transformação, de looser a herói, que um artista inseguro assume ao empunhar sua guitarra. De dia, Luke Jenner, frontman do Rapture, é um ser pacato, misto de moleque mimado com um neurótico woody-alleniano. Já disse ao Estado ter passado noites em claro preocupado com a fama, invejando bandas que tomaram o lugar do Rapture nas capas da Spin. Seu papo inquieto não convenceu a reportagem de que mudou. Além disso, mostrou não estar muito confiante com a qualidade de In The Grace of Your Love, disco que tem três ou quatro das melhores canções de 2011.

À noite, Jenner vira um ás endiabrado do disco punk para fazer apresentações arrasadoras como a desta quarta-feira, em que, por boa parte de seu set de uma hora e meia, transformou o Cine Joia em uma Bombonera de pulsações vertiginosas, recebidas com abandono pela plateia. O Rapture impõe um ritmo frenético desde o início, tocando uma série inicial de canções como se o show começasse pelo ápice. Não deixam a plateia respirar. Engatam um hit no outro como se tivessem pressa.

A guitarrinha malandra de Never Die Again, uma das primeiras, podia ser ouvida da rua, junto à bateria de Vito Roccoforte, anunciando o tsunami de riffs farpados e percussão metralhada que preencheria a espaçada acústica da casa (em termos de som, foi o melhor show feito desde a inauguração do Joia, em novembro, pois os engenheiros da casa ainda não encontraram uma forma de estancar as reverberações desmedidas que chicoteiam pela estrutura oval, de cinema antigo).

Por cima do caos dançante, os agudos meio desafinados de Jenner davam efervescência adolescente ao show - o que culminou em House of Jealous Lovers, o single que foi o estopim, em 2002, para o revival de dance punk na última década. Ao presenciar o efeito do riff de Jealous Lovers - afiado que nem gilete, perigoso que nem punhal enferrujado - é difícil imaginar que algum dia justiça seja feita em disco ao que o Rapture é ao vivo. Jenner é um exímio hitmaker ainda em seu auge (a faixa-título de seu último disco, junto a Come Back To Me, uma brilhante readaptação de dance pop do início dos anos 90, são bons exemplos), e deve continuar fazendo bons álbuns. Mas, em show, suas canções são libertadas de um cativeiro: como tantas outras bandas de indie rock, o Rapture não apresenta o trabalho do último disco, mas realiza a função para qual as músicas foram criadas. A diferença é a panela de pressão, o calor insuportável e a plateia pipoca que lotou a parte de baixo do Cine Joia.

O show foi do suingue escrachado da disco music tocada por garotões roqueiros, aos andamentos certeiros de uma base eletrônica, com sintetizadores, percussão e saxofone, além dos instrumentos de sempre. Boa parte do repertório foi do último disco, que teve sua faixa-título, uma ode à superação pessoal com pinceladas de gospel (a mãe de Jenner suicidou-se nos anos em que a banda esteve parada e o cantor só conseguiu voltar a compor recentemente), tocada no início.

Ao vivo, a banda tem fama histórica, pois foi em shows do Rapture, no início dos anos 2000, que a juventude descolada percebeu que era mais proveitoso dançar do que ficar de braços cruzados, destilando cinismo, em um show de rock. Alguns relatos interessantes desta época estão nas resenhas do Rapture no site Pitchfork, em que um crítico descreve o processo de transformação e animalização de uma plateia indie em pista de dança.

Toda esta energia foi reconstruída na quarta-feira, mas quando está à paisana, Jenner parece esquecer de que sua banda é capaz de algo tão poderoso.

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