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Humberto Werneck
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Pisando em ovos

O objetivo mais alto era manter a alma bem lavada e enxaguada, de modo a que estivesse impecável, em qualquer sentido, no instante em que a longa mão do Criador nos recolhesse. Mas eu nem queria tanto. Estava mais interessado no cartucho com amêndoas a que teria direito por haver participado da nossa procissão de Corpus Christi.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2015 | 02h09

"Nossa" porque acontecia no Sanatório Hugo Werneck, criado pelo meu avô, aí por 1930, numa beirada de sua fazenda, nas proximidades de Belo Horizonte. Motivo não me faltava para contar vantagem junto aos amiguinhos que, na cidade, também tinham Corpus Christi, mas nenhum deles com procissão própria.

Se a nossa era melhor que as outras, isso em grande parte se devia à atuação, no sanatório, de um plantel de freiras estrangeiras que meu avô tivera o descortino de acolher. Servas do Espírito Santo, acondicionadas em hábitos azuis com papo branco, naquele tempo em que para freiras era esse o hábito. Algumas tinham nomes extravagantes, o mais inesquecível sendo Willibald - exclusivo para homens, esclarece da Alemanha a amiga Hedi, mas podendo ser usado também como sobrenome. Lembro-me delas na missa das 6 (a das 8 estava fora de cogitação, decretaram meus pais, para evitar contato com fiéis tuberculosos). Chegado o momento da comunhão, suas gargantas teutônicas começavam a emitir, nos bancos mais ao fundo, uma reza cantada e fininha que ia aos poucos encorpando, à medida que o grupo se encaminhava para receber a hóstia, a qual, distante ainda o sistema self service, o celebrante depositava diretamente em cada língua.

Não menos inesquecíveis ficaram sendo os capelães. O padre Luís, que, já bem velhinho (bem "erado", dizia minha mãe, tomando liberdades com o glossário da pecuária), estava cego de um olho, infortúnio que lhe valeu entre nós o apelido de padre Camões.

Depois veio o padre Frederico, de quem a pança, formidanda, não era a única anomalia: abalada por um AVC, a modulação de sua voz nada tinha a ver com o conteúdo da fala, o que me fazia pensar nas emissões de rádio em ondas curtas da época, nas quais o som, na hora crucial, desaparecia. "A coleta de esmola", recitava o padre Frederico, "rendeu a vultosa quantia de..." - mas nesse ponto sua voz murchava, e nunca ficávamos sabendo quantos cruzeiros haviam pingado na cesta de óbolos.Não sei quem sucedeu ao padre Frederico, discretamente afastado das funções no dia em que, nas cercanias do sanatório, o encontraram, num gramado ao sol, a ler o breviário em trajes de Adão antes da folha de parreira. Bem poucas vezes me confessei com ele (na hora de decretar a penitência, azar meu, a voz não sumia) ou com o padre Camões, e não porque me faltassem pecados, que podiam ser por "pensamentos, palavras e obras". Obras, infelizmente, tinha bem poucas ao alcance da mão.

No Corpus Christi os meninos se paramentavam de cetim vermelho e chacoalhavam sinetas, o número de badalos - de 1 a 4 - dependendo da idade do coroinha. Apóstata precoce, não cheguei ao estágio seguinte, em que balançaria o turíbulo onde fumegava o incenso, ou empunharia um tocheiro, ou, ainda, distinção inigualável, assumiria um dos paus do pálio sob o qual, num ostensório dourado, o padre conduzia a Santa Hóstia. Turíbulo, pálio, ostensório - foi no sanatório, como para rimar, que aprendi o palavrório da liturgia católica. Fosse menina e teria sido, primeiro, "anjo", de branco, em seguida "virgem", com veste azul e um cesto de pétalas. Não esqueço o pasmo de um moço estranho à família no dia em que uma das primas, para a qual arrastava indisfarçável asa, declarou candidamente: "Até o ano passado eu fui virgem!".Muita volta para dizer que não me lembraria tão vivamente daquelas procissões não fossem as freiras, responsáveis que eram não só pelos cartuchos de amêndoas como pelos painéis coloridos por sobre os quais passaria a procissão. Conheci outros por aí, mas nenhum tão belo quanto aqueles, compostos com material que até hoje não voltei a ver utilizado: cascas de ovos, acumuladas durante meses, depois moídas e tingidas de diversas cores. Com aquela farinha grossa as freiras compunham deslumbrantes tapetes, delicadezas condenadas a serem desfeitas sem piedade pelos pés dos fiéis em marcha. Os meus, inclusive, ai de mim, pois embora condoído também eu passava - e hoje penso que entre meus pecados, de menino e adulto, aquele é certamente dos maiores.

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