Piratas tudo começou com eles

Estudo reconstrói história dos EUA e sua delicada relação com o Oriente Médio

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2012 | 03h10

A tumultuada relação entre os Estados Unidos e países do Oriente Médio remete ao século 18, quando navios americanos foram atacados por piratas na região. Trata-se da primeira situação de inimizade entre as nações. Desde então, um tenso relacionamento, com acusações mútuas, foi tomando forma, até culminar com os ataques terroristas de 2001 em território americano.

"É chocante ver como os EUA se fizeram de 'mocinho' no Oriente Médio até a segunda metade do século 20, enquanto França e Inglaterra eram basicamente os 'bandidos' imperialistas temidos e odiados", comenta o pesquisador e diplomata aposentado Jean-Pierre Filiu que, ao lado do quadrinista David B., elaborou uma ousada trilogia sobre essa relação tão delicada. O primeiro volume de Os Melhores Inimigos chega agora ao Brasil, pela editora Ática.

O livro começa naquele ataque pirata, de 1783, e vai até 1953, quando a CIA derrubou o primeiro-ministro Mossadegh, do Irã. No meio do caminho, a dupla historiador/quadrinista promove uma viagem que vai de Gilgamesh à medição de forças provocada pela conquista do petróleo. Quadrinista premiado, de traço original e, por vezes, surreal, David B. exibe o traço correto para combinar com o texto enxuto, mas preciso de Filiu para relatar quase dois séculos de uma história recheada de pormenores. Juntos, criaram um estilo alegórico-pedagógico. Sobre o trabalho, Filiu respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Creio que a linguagem é a essência da narrativa. Foi difícil resumir ideias em pequenos balões?

Uma novela gráfica é um desafio como narração de uma história. David B. é incrivelmente dotado para encontrar novas metáforas ilustradas que servem aos propósitos das diversas camadas de texto, como o canhão, grande ou pequeno, para representar o poder colonial e militar, ou o turbante como símbolo do Império Otomano e seu poder. É com esse pano de fundo que as legendas encontram seu espaço natural, que é necessariamente limitado e determinado pela narrativa gráfica. Devo admitir que uma das dinâmicas essenciais do capítulo de abertura foi encontrar citações adequadas no discurso contemporâneo para acompanhar uma fábula de quatro milênios atrás. Mas não direi mais para não revelar o truque dramático que usamos a esse respeito.

A decisão de lidar com o problema a partir de suas raízes no fim do século 18 não é simplista, imagino. O que foi essencial manter na seleção final?

David B. e eu esperamos transmitir uma espécie de diversão esclarecida, que seja estimulante e desfrutável. Seria aborrecido propor uma pesquisa exaustiva da história muito densa das relações EUA-Oriente Médio. Por isso, optamos por centrar nossos quatro episódios centrais e tratar cada um deles num "gênero" especial: a fábula antiga, depois a novela de pirataria, depois o conto histórico e, por último, uma história de espionagem, que é perfeitamente adequada ao golpe arquitetado pela CIA contra Mossadegh no Irã em 1953.

David B. é um dos verdadeiros visionários dos quadrinhos contemporâneos, criador de uma linguagem visual muito particular. Como foi trabalhar com ele?

Há muito que admiro o trabalho de David. Como arabista, fiquei impressionado com suas histórias sobre o Islã na Idade Média e o messianismo asiático. Nós nos conhecemos à sombra de um dos castelos do Vale do Loire, em Blois, sede da convenção anual de livros de história, onde recebemos ambos o prêmio principal em 2008, David por quadrinhos históricos e eu por pesquisa histórica. Foi aí que decidimos trabalhar juntos num projeto de longo prazo como este. É fascinante colaborar com um artista tão talentoso que é também verdadeiro erudito intelectual. Para mim, um acadêmico, foi um sonho que se realizou.

David Slone Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Construction, observa que nós nos construímos e nos reconstruímos para fazer frente às necessidades das situações. Ele acredita que fazemos isso com a orientação das lembranças do passado e das esperanças e medos do futuro. O que pensa disso?

Essa questão é central para qualquer pesquisa histórica. Considero que a história nos ensina muito sobre o mundo onde vivemos, e não só no Oriente Médio, meu campo de especialização. Eu era professor visitante na Universidade Columbia em Nova York em 2011, quando Washington decidiu se juntar à coalizão anti-Kadafi. Fiquei chocado com o fato de nenhum editorialista ter consciência da guerra que os jovens EUA travaram na Líbia dois séculos atrás, a primeira guerra da nascente América. Não acredito em ciclos históricos, mas estou convencido de que os EUA carregam o peso de um profundo legado que eles com frequência negam para se apresentar como "jovem" nação, em comparação com as "velhas" potências coloniais da Europa. É assim que vejo a América, num processo constante de construção e desconstrução de suas relações com o Oriente Médio, para lidar com desafios contemporâneos, e também para se definir e redefinir como América.

Os EUA passaram longo período sem nenhuma relação com o Oriente Médio. Qual foi a dificuldade de pesar os prós e contras dessa relação tão complicada?

Como historiador, meu método é nunca tentar pesar prós e contras, mas apresentar uma realidade complexa em suas diferentes dimensões. Mas é chocante ver como os EUA se fizeram de "mocinho" no Oriente Médio até a segunda metade do século 20, enquanto França e Inglaterra eram "bandidos" imperialistas temidos e odiados. Isso prova que não há um antiamericanismo "essencial" no Oriente Médio; essa hostilidade aos EUA é um processo político e não religioso ou cultural. O ponto de virada a esse respeito foi o golpe de 1953 no Irã contra um governo democraticamente eleito, semelhante à operação secreta anti-Arbenz na Guatemala em 1954.

Como pretende dividir o tópico nos próximos dois volumes?

Nossa ambição é cobrir em três volumes a história do EUA, do nascimento até hoje. Assim, o primeiro volume termina em 1953. O seguinte abrangerá a Guerra Fria e a Guerra dos Seis Dias de 1967 até o tratado de paz egípcio-israelense, patrocinado pelos EUA e a crise do Líbano de 1982-84. O terceiro tratará das três últimas décadas, com os desdobramentos fundamentais do processo de paz no Iraque e Afeganistão, e, claro, do legado do 11 de Setembro até Obama e, se for eleito, Romney. É uma obra em progresso e esperamos que nossos leitores se divirtam com ela.

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