Pique de garoto

Há duas ou três pessoas em que penso sempre que ouço falar de alguém cuja vida “daria um romance” – e uma delas é o jornalista José Maria Rabêlo, cujas peripécias não se resumem a três exílios políticos. Bem que eu gostaria de estar em Belo Horizonte nesta quarta-feira, para vê-lo e ouvi-lo falar, na biblioteca da Praça da Liberdade, ao lado do colega Guy de Almeida, sobre um capítulo fascinante não só de sua vida como da história da imprensa brasileira: a saga do Binômio, semanário por ele fundado em 1952, massacrado no primeiro minuto do golpe de 1964 e reconhecido hoje como precursor do legendário O Pasquim. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2016 | 03h00

Não dispondo este cronista de talento e espaço para um romance, convém abreviar a história e até o nome do protagonista. Mineiro de Campos Gerais, Zé Maria tinha 24 anos quando, em parceria com o amigo Euro Arantes, ousou pegar uma contramão na imprensa de Minas Gerais, a seu ver subserviente ao governador Juscelino Kubitschek. Como o lema do governo era “Binômio Energia e Transporte”, saíram-se eles com “Binômio Sombra e Água Fresca”. E deixaram claro no primeiro editorial: “Temos 99% de independência e 1% de ligações suspeitas. O oposto, exatamente, do que acontece com os nossos ilustres confrades”.

Animado por um time de efetivos e colaboradores como Guy de Almeida, Fernando Gabeira, Geraldo Mayrink, Roberto Drummond, Wander Piroli, Adauto Novaes e Ziraldo, durante 12 anos o Binômio fustigou com irreverência os poderosos. Quando, por exemplo, o governador viajou ao Triângulo Mineiro em companhia do incorporador Joaquim Rolla, leu-se em manchete que “Juscelino foi a Araxá e levou Rolla”. 

Se JK quase sempre reagiu com bonomia, o mesmo não se passou com outros alvos do jornal. O episódio extremo aconteceu em 1961, quando o Binômio resolveu investigar o passado do comandante da IV Infantaria Divisionária, general Punaro Bley, por barbaridades que teria cometido quando interventor no Espírito Santo, sob a ditadura do Estado Novo. “Democrata hoje, fascista ontem”, cravou o Binômio. 

Enfurecido, Punaro foi tomar satisfação. Houve troca de sopapos e a certa altura Zé Maria fez o general de 4 estrelas ver umas tantas mais, ao deixá-lo de olho roxo – façanha da qual nunca se jactou nem se arrependeu, limitando-se a lamentar que tenha sido levado a tanto. Pagou caro. Pouco depois, 200 militares cercaram o prédio, subiram ao 8.º andar e destruíram a redação.

Para não ser preso, Zé Maria fugiu para São Paulo, disfarçado numa batina cedida por um companheiro de militância no Partido Socialista, o padre Lage. Meio século depois, a batina reapareceu e o jornalista prometeu doá-la a um museu da resistência à ditadura. 

Era fatal que, às vésperas do golpe de 64, a direita quisesse beber-lhe o sangue. Dois dias antes, ele descia para almoçar quando, pelo outro elevador, subiam oficiais para prendê-lo. Nova fuga, dessa vez para o Rio, onde Zé Maria se asilou na embaixada da Bolívia. 

Dali sairia para seu primeiro exílio, num grupo, aliás, de que fez parte um ex-presidente da UNE cuja cabeça, à época, era tão recheada de socialismos quanto guarnecida de cabelos, o jovem José Serra. 

Meses depois, um golpe derruba o presidente boliviano e empurra Zé Maria para novo exílio, no Chile, onde só em dezembro de 1965 pôde ter de novo junto a si a mulher, Thereza, e os 7 filhos do casal. 

Quando o visitei em Santiago, em 1972, encontrei-o, exuberante, no leme da esplêndida Librería de las Ciencias Sociales. Em setembro do ano seguinte, seu nome estava na primeira lista de procurados pelos golpistas que derrubaram Salvador Allende. Escaldado, Zé Maria refugiou-se na embaixada do Panamá, onde viveu o drama suplementar de saber que um dos filhos estava preso no campo de concentração em que se convertera o Estádio Nacional.

Foram meses de agonia até que o clã Rabêlo pudesse voar, em janeiro de 1974, para seu terceiro exílio, agora na França. Também ele exilado, o amigo Mário Soares deu-lhe emprego na Libraire Portugaise – e, pouco depois, o comando da casa, quando a Revolução dos Cravos lhe permitiu voltar à pátria de que viria a ser presidente. 

A França vivia então uma disputa pesada entre a esquerda de Mitterrand e a direita de Giscard d’Estaing. Um dia, habituado que estava aos sufocos político-policiais de sua família, um dos filhos mais novos pediu a Zé Maria: no próximo golpe, podia ir com ele para a embaixada? 

Não foi preciso. A anistia, em 1979, pôs fim aos solavancos que por 16 anos turvaram o sossego dos Rabêlo. Nem por isso quis Zé Maria recostar-se, como tantos, na condição de ex-combatente. Nada de sombra e água fresca. Entre outros desafios, ajudou Brizola a pôr de pé o PDT. 

Aos 88 anos, segue quase tão ativo quanto o moço que aos 24 inventou o Binômio. Nada lhe tira o pique e o bom humor, nem mesmo a grande dor de haver perdido, em 2013, sua Thereza – com quem botou em livro, Diáspora, suas memórias de exilados –, e, uns anos antes, o primogênito Álvaro. O avô de 11 netos vai se casar de novo, e anuncia mais um livro para o mês que vem. Fica faltando apenas um romancista que nos conte, em copiosas páginas, a saga desse personagem sem igual.

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