Hadi Mizban / AP
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Pipas, peladas e rolimãs

Cinema era a maior diversão, acossado pelo futebol, transmitido ao vivo pela TV

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 03h00

No embalo do triunfo da Rayssa em Tóquio, atletas do Twitter e do Facebook entregaram-se, por dois dias, a uma disputa de postagens nostálgicas instigada por esta singela pergunta: “o que você fazia aos 13 anos?”. O máximo em matéria de medalhas que os disputantes conquistaram com os mesmos 13 anos de Rayssa foi na escola, e olhe lá. 

Eu nem isso. Muito menos aos 13 anos. Embora peladeiro e bom arremessador da zona morta, espaço a que a insuficiente estatura me condenou nas quadras de basquete, nem por meus dotes esportivos consegui um galardão para exibir à família. 

Aos 13, eu era um orgulhoso ginasiano do Colégio Pedro II, esfalfando-me para dar conta das dez matérias que compunham o currículo dos segundanistas daquele tempo.

Meu skate era, modestamente, uma prancha com rolimãs, que pilotávamos sentados e chamávamos apenas de “carreta”. Nela eu deslizava pelas ladeiras que unem os bairros de Santa Teresa e Glória, minha Pasárgada carioca nos anos 1950, escoriando pés e ralando joelhos. Dois sensíveis cronistas da Folha de S.Paulo, Gregório Duvivier e Álvaro Costa e Silva, já sugeriram sua inclusão nos Jogos Olímpicos. 

Tampouco naquela época nos distraíamos com videogames. O futebol de botão e o futebol totó (pebolim, em paulistês) saciavam nossas carências lúdicas. Empinar pipa na brisa da pracinha que há tempos batizaram de Glauce Rocha, em Santa Teresa, era folguedo que não impedia os rachas com a bola disponível. Prendia-se a linha a uma árvore, para manter a pipa planando docilmente, e a pelada tinha início, na precária cancha de paralelepípedos e em declive. 



Ler e desenhar quadrinhos, ver e brincar de fazer filme (roubava a cena com minha imitação de Jay Robinson, o Calígula de Demétrio e os Gladiadores, na versão que sublimávamos no quintal) davam para o gasto e ainda sobrava. Cinema era a maior diversão, acossado pelo futebol, transmitido ao vivo pela TV, nas tardes de domingo, quando não apreciado presencialmente nos estádios, em especial pelos flamenguistas, tricampeões cariocas naquele ano em que cheguei aos 13 e meu Botafogo amargou a sétima colocação no campeonato.

O rádio ainda reinava sobre a televisão, cuja programação incipiente não me oferecia as mesmas emoções dos seriados radiofônicos (As Aventuras do Anjo, Capitão Atlas, Jerônimo) e dos programas humorísticos (PRK-30, Edifício Balança Mas Não Cai) e musicais (A Hora da Broadway, Your Make Believe Ball Room, Em Tempo de Jazz). 

O rock chegava aos bocadinhos. Primeiro no 78 rotações de Glenn Ford, quebrado por Vic Morrow naquela escola barra-pesada de Sementes de Violência, um ano depois em Ao Balanço das Horas, com o mesmo Bill Haley e Seus Cometas. 

No Hit Parade careta, secundado por baladas românticas (Only You, Unchained Melody) e doo-wop branco (Mr. Sandman), o mambo transnacional do cubano Perez Prado tirou todo o planeta para dançar à sombra de uma cerejeira que eu, cretinamente, cantava “a cerejeira não dá rosa mais”, em vez de “não é rosa mais”.

Nos píncaros dos meus 13 anos, vi filmes mais marcantes do que nas duas últimas temporadas. Perdi a conta de quantas sessões de Vidas Amargas emendei em duas semanas, certamente mais que as de Juventude Transviada, Ladrão de Casaca, O Pecado Mora ao Lado e A Morte Num Beijo - que safra, hein? E nem foi, suspeito, a melhor daquela década.

Ainda não fora arrebatado pela Kim Novak de Férias de Amor, nem convertido ao culto de Ava Gardner, a condessa descalça, talvez por fidelidade a uma mesmerizante foto de Marilyn Monroe num vestidinho de saco de aniagem, republicada pela revista O Cruzeiro. A ideia era mostrar como ela era sexy em qualquer traje, como se isso fosse necessário. 

Tive uma paixonite bem mais casta por Debra Paget, a índia apache por quem James Stewart caía de amores em Flechas de Fogo, e que se transformaria em tesão mesmo, seis anos mais tarde, quando Fritz Lang a fez encantar, quase nua, uma serpente em O Túmulo Indiano

Com mais uns dois anos no lombo teria dado alguma atenção à política. As eleições de 1955 resumiram-se, para mim, a uma aposta entre os colegas, que afinal perdi. Deu Juscelino Kubitschek, não Juarez Távora. Ainda bem. Essa alvissareira derrota manteve os militares e a direita mais um tempo distantes do poder, embora sempre exaltados e golpistas.

Para sustá-los, Getúlio Vargas dera um tiro no peito em agosto de 1954. Para assegurar a posse de JK, o marechal Teixeira Lott, ministro da Guerra de Café Filho, inesperado sucessor de Getúlio, teve de desembainhar sua Excalibur legalista e fazer valer o que determinava a Constituição. 

O Brasil dos meus 13 anos era e não era muito parecido com o de agora - sem a espada de Lott. Tínhamos líderes políticos frouxos, amorfos e desonestos (Adhemar de Barros disputou as eleições presidenciais vencidas por JK), mas até os parlamentares mais hidrófobos, como Carlos Lacerda, eram de outra cepa. Lacerda, sumo golpista do udenismo, era um homem lido e um orador admirável. 

Nossos militares vinham da Escola de Resende, não das Agulhas Negras. Os mais assemelhados aos atuais comandantes de Bolsonaro (como o coronel Bizarria Mamede, por exemplo) tiveram de adiar por uma década a ditadura que a paranoia anticomunista cozinhou em banho-maria.

Nenhum dos três presidentes da República que se revezaram no Catete entre o suicídio de Getúlio e a posse de JK, 16 meses depois, merece o opróbrio da comparação com o ogro que hoje dá, quando dá, expediente no Planalto. Sinto menos saudades dos meus 13 anos do que do país franco e risonho no qual então, esperançoso, vivia.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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