PIONEIRO, EUCLIDES É MARCO

ANTONIO GONÇALVES FILHO

O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h12

Ao começar a guerra de Canudos, em 1897, Euclides da Cunha (1866-1909) foi convidado pelo Estado a cobrir o conflito. O correspondente deixou Canudos quatro dias antes do fim da guerra, mas conseguiu sair de lá com um livro que virou clássico, Os Sertões. Nele, o autor reavalia sua posição sobre Antonio Conselheiro e seu movimento (o escritor era republicano e via nele uma tentativa de restaurar a monarquia no Brasil). Euclides, segundo o professor Edvaldo Pereira Lima, foi o marco zero do jornalismo literário brasileiro que, a exemplo do norte-americano, tem nomes comparáveis a Katharine Boo, Gay Talese e Truman Capote.

O professor, cofundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, está ministrando um curso de pós-graduação da área na Casa das Rosas (inscrições pelo site www.abjl.org.br). É o nono do autor de Páginas Ampliadas, livro que formou hoje doutores em jornalismo literário. Para Pereira Lima, embora o jornalismo literário norte-americano seja "mais consistente", há exemplos no Brasil que justificam o crédito na expansão do gênero. "Há ainda publicações como o suplemento Aliás, do Estado, que fazem lembrar os precursores Jornal da Tarde e a revista Realidade", cita, destacando o trabalho de repórteres como Christian Carvalho Cruz (Aliás).

Eliane Brum, da revista Época, é igualmente citada como modelo do bom jornalismo literário pela professora Edilamar Galvão, que coordena um curso sobre o gênero - com início em abril na pós-graduação da Faap. A iniciativa comprova o interesse crescente de novos profissionais em seguir a experiência de jornalistas que traduzem suas experiências de campo em linguagem literária, como a pioneira Lillian Ross. Influência admitida de Truman Capote e uma das vozes mais originais da revista The New Yorker, Lillian Ross, em Filme, relata a experiência de acompanhar uma filmagem do diretor John Huston. O livro integra a coleção Jornalismo Literário (Companhia das Letras), idealizada pelo editor Matinas Suzuki Jr., que já tem 32 títulos publicados.

A coleção, que reúne livros de autores como Truman Capote (A Sangue Frio) e Norman Mailer (A Luta), entre outros, poderia ter mais autores brasileiros além de Antonio Callado, Joel Silveira e Zuenir Ventura. Para isso, "editores de jornais e revistas teriam de ousar mais, apostar na subjetividade dos repórteres", observa Edilamar Galvão. "A tradição aqui é a do Manual de Redação, que limita o estilo do profissional", critica, atribuindo à diminuição do espaço editorial a ausência de uma construção narrativa mais densa, capaz de competir com a "superficialidade" dos textos breves publicados na internet. "Penso num livro como Passagens, por exemplo, em que Walter Benjamin analisa a transformação da cultura parisiense por meio de suas galerias - para mim um modelo de jornalismo literário."

Editor da revista Serrote (IMS), Paulo Roberto Pires lembra que essa busca por um texto mais ensaístico é uma reação ao jornalismo da web, que se pretende sintético, objetivo. Ele cita como exemplos de sucesso editorial a revista brasileira Piauí e a norte-americana N+1, que aposta na inteligência do leitor e vem sendo considerada ainda mais interessante que a New Yorker. "O jornalismo literário não é mais o do tempo de Truman Capote", analisa Pires. "Hoje é mais digressivo, menos literário."

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