Pinturas sonoras e transcendentais

Brian Eno fala sobre controle, entrega e seu grande projeto audiovisual que chega ao Rio

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2012 | 03h00

Há 77 milhões de maneiras de se compreender Brian Eno. As mais conhecidas formam um currículo de gênio: fundador do seminal Roxy Music, visionário das mesas de mixagem, artista conceitual, parceiro de David Bowie e do Talking Heads, criador da ambient music, produtor do U2 e do Coldplay.

Entretanto, todas essas maneiras - desde o raciocínio cristalino de suas observações à ironia de suas respostas ("que tal se eu voltar a tocar com o Roxy Music quando eu tiver 90 anos?")- são retratos de uma mente incansável, em constante fluxo entre o que o próprio artista define como estados de "controle" e de "entrega".

O número astronômico refere-se à obra audiovisual 77 Million Paintings, que Eno projetará, de hoje a domingo, sobre os arcos da Lapa, no Rio. São 77 milhões de permutações gráficas que se mesclam de forma generativa para criar obras quase infinitamente inéditas, acompanhadas de música feita por um aplicativo para iPad concebido por Eno.

No centro do processo criativo que resultou nas projeções, está um fascínio pela "entrega" do artista e do público. "Nos últimos 2 ou 3 mil anos, os seres humanos tornaram-se exímios fabricantes de ferramentas tecnológicas e outras formas de obter controle", conta, em entrevista ao Estado. "Controlamos as colheitas, a temperatura, e admiramos os que conseguem fazer isso bem. Mas esquecemos que nós também temos o talento da entrega. É um termo que sugere algo passivo, mas também implica algo transcendental: a nossa capacidade de entregar o controle e de ser algo maior que nós mesmos."

No universo de Eno, isso resultou em composições que nunca são reproduzidas duas vezes da mesma forma. No caso de suas projeções, são mostradas de modo que o criador não tem controle sobre a composição da obra: os gráficos projetados nunca se repetem da mesma maneira.

Mas o equilíbrio entre controle e entrega também influencia o seu processo criativo no estúdio, desde os tempos do Roxy Music. "Nos anos 70, os alunos de artes plásticas compreenderam isso melhor do que os alunos de música. Por isso, a música revolucionária foi feita por artistas que pensavam em música de forma menos controladora", explica. "É muito importante saber se entregar. Se não, vivemos vidinhas egoístas e solitárias. E só porque os hippies já diziam isso, não quer dizer que eles estavam errados."

Tratando-se do artista por trás do disco Heroes, de Bowie, e de Remain in Light, do Talking Heads - entre tantas outras obras fundamentais -, imagina-se que há um alto nível de controle em suas produções. Assim como George Martin fizera alguns anos antes, Eno descobriu que um estúdio era capaz de compor um quadro sonoro distinto, uma revelação que dita os caminhos da música desde então.

"Quando comecei meu trabalho, no fim dos anos 60, o estúdio era o instrumento mais novo. Eu era tão qualificado para usá-lo quanto qualquer outra pessoa. Era diferente da guitarra, que tinha uma história de grandes mestres impossível de ser ignorada. Então, foi a origem de um processo que acabou definindo a forma de fazer música de ali em diante. Eu e Brian Ferry, do Roxy Music, percebemos isso. Quando estávamos no estúdio, pintávamos com o som", explica.

O fascínio de Eno por tecnologia é recorrente. O músico praticamente inventou uma forma de utilizar sintetizadores, no fim dos anos 60, época em que eram usados apenas como instrumentos convencionais, ou instrumentos completamente experimentais. Suas pesquisas também levaram à concepção de ambient music (gênero de música estática, tranquila, que hoje em dia é escutado em qualquer sala de massagem), a um interesse em softwares. Há dez dias, Eno lançou o aplicativo Scape, para iPad, que faz música generativa (em outras palavras, compõe música que soa diferente, dependendo das circunstâncias) e será usado para acompanhar as projeções na Lapa.

"Todo dia, há ao menos uma invenção interessante no universo dos estúdios. Um novo tipo de sintetizador, uma nova técnica de gravação ou alguma modificação no Pro Tools. Há sempre coisas novas que podem ser feitas com isso. Quando Steinway inventou o terceiro pedal para o piano, aquele que faz com que as notas soem de forma prolongada, aquilo inspirou Debussy e Ravel a fazerem uma série de peças que utilizavam o recurso. Foi uma invenção muito importante. Hoje em dia, isso acontece todos os dias", conta.

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