Pinturas de Botero sobre Abu Ghraib são exibidas em Washington

O artista colombiano Fernando Boteroganhou fama com suas alegres pinturas de pessoas gordinhas,mas, depois de ouvir as notícias sobre os casos de tortura naprisão de Abu Ghraib, no Iraque, a obra dele adquiriu um tommais soturno. O artista canalizou sua indignação para 79 pinturas edesenhos atualmente expostos em uma exibição que estreou nestasemana, em Washington. Botero afirmou a estudantes e visitantes presentes à mostraque esperaria ver ditadores do Terceiro Mundo agredindoprisioneiros, mas não os EUA, que, segundo o artista, defendemos direitos humanos e a democracia. "Ficar sabendo que os norte-americanos estavam torturandofoi um choque para o mundo todo", disse. "Fiquei transtornadoquando li a respeito disso na imprensa dos EUA." Tomado por estado de espírito, Botero pintou. E, durante osúltimos três anos, o artista bateu na porta de museusnorte-americanos, mas ninguém parecia disposto a exibir acoleção completa. Até a Universidade Americana aceitar recebera mostra. O pintor, que mora em Paris, retratou o sofrimento e adignidade das vítimas, e não os agressores. As imagens mostramos corpos rechonchudos de Botero no corredor da prisãoiraquiana, nus e com marcas de sangue, os rostos tomados poruma expressão de dor, os dentes a ranger. "Foi doloroso pensar sobre isso e foi doloroso pintar isso.É diferente pintar uma odalisca, uma mulher bonita ou umapaisagem", afirmou. "(Mas) a gente sabe que está fazendo algosério, algo muito dramático," acrescentou. Segundo Botero, as pinturas são para serem "vistas, e nãovendidas", de forma que decidiu doar toda a coleção para ummuseu. A exibição integra uma mostra chamada "Arte daConfrontação," que deve estender-se até 30 de dezembro e queocorre no Centro de Artes Katzen, dentro da universidade. Botero disse prever que será criticado nos EUA, como foi naEuropa quando as obras foram exibidas lá, por pessoas quediscordam do ponto de vista dele. "Houve críticas, ligações telefônicas, cartas e declaraçõesde ódio. O que era previsível", afirmou. Apesar de seus esforços para retratar os horrores datortura, o pintor não acredita que a arte consiga mudar omundo. "'Guernica' foi o maior quadro do século 20, mas nãoconseguiu fazer nada contra Franco (o ditador espanholFrancisco Franco)", declarou ele, referindo-se à obra-prima dePicasso. "Mas isso lembrará as pessoas de um momento deploráveldeste governo, lembrará as pessoas do que é a tortura",afirmou. Quando um estudante perguntou quem ele gostaria de convidarpara ver a mostra, Botero respondeu: "Bush (George W. Bush,presidente dos EUA)". Depois da exibição em Washington, as pinturas de Boteroseguem para Monterrey, no México.

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