Pintura de Adriana Varejão é analisada em livro

Artista lança obra em e revê a miscigenação em mostra que abre em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2014 | 20h00

Leitora dos livros da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, a pintora Adriana Varejão, que a conheceu numa ponte aérea entre Rio e São Paulo, pediu a ela que escrevesse um texto para seu livro Entre Carnes e Mares, publicado há cinco anos pela editora Cobogó. Nele, Lilia analisava a presença do barroco e a desconstrução da história do Brasil nas telas da artista, que começou sua carreira há quase 30 anos. A parceria deu tão certo que, cinco anos depois, surge um novo livro da dupla, Pérola Imperfeita: A História e as Histórias na Obra de Adriana Varejão. O livro, publicado em conjunto pela Cobogó e Companhia das Letras. Simultaneamente, será aberta, no sábado, sua exposição Polvo, no Galpão Fortes Vilaça.

Há cinco anos sem expor no Brasil, a pintora apresenta na mostra telas da série Polvo Portraits, pinturas faciais geométricas de inspiração indígena que redefinem um mesmo rosto de mulher com traços de diferentes cores. Um conjunto de tintas idealizado pela artista com base na cor da pele do brasileiro complementa a exposição, para a qual foi criada a marca fantasia Polvo. O marco zero da mostra foi uma pesquisa realizada pelo IBGE em 1976, em que o instituto introduziu a questão "qual é a sua cor?", ouvindo dos pesquisados as mais extravagantes respostas, todas desafiando o bom senso etnográfico.

Com base na pesquisa, Adriana selecionou 33 dessas exóticas cores dos brasileiros ("café com leite", " queimada de sol" e "enxofrada", entre elas) e mandou confeccionar uma caixa com 33 tubos de tinta, usados nos 45 retratos expostos na mostra. Múltiplo com tiragem de 200 exemplares, esse estojo de pintura contribui para o lado conceitual de uma exposição de retratos – do rosto da artista – encomendados a outros artistas. São suas intervenções que marcam a autoria desse trabalho.

Reinterpretação, aliás, caracteriza toda a obra de Adriana Varejão, uma "devoradora de imagens de livros", na definição de Lilia Schwarcz, que recontou a história do Brasil em pinturas paródicas cujas vítimas preferenciais foram os pintores viajantes. De Eckhout a Taunay, passando por Debret, todos eles foram usados na ficção visual da artista carioca, lembrada por seu canibalismo amoroso e anticolonialista.

Qual é a cor da pintora carioca Adriana Varejão? Branquinha? Nem sempre. Na série de retratos Polvo, ela deveria pintar um autorretrato para se auto conhecer – meta, aliás, do tradicional gênero de pintura. Mas preferiu encomendar a pintura de seu rosto a outros retratistas e interferir nele com pinturas geométricas indígenas, que usam 33 cores de tinta da marca fantasia Polvo, criada por ela. Assim, a "branquinha" se transforma na "moreninha", na "fogoió" e na "queimada de sol", cores levantadas pelo censo do IBGE de 1976 e ponto de partida da exposição Polvo, aberta a partir de sábado no Galpão Fortes Vilaça.

O conjunto de retratos mantém vínculo estreito com trabalhos anteriores de Adriana Varejão, de assumido caráter expressivo, paródico e ancorado na estética barroca. Com tantos nomes de cores e todos os 136 matizes de peles mencionados na pesquisa do instituto oficial, a questão racial é diluída, observa a pintora, que se interessou pelo trabalho da historiadora Lilia Schwarcz justamente após ler seu livro O Espetáculo das Raças (1993). Nele, a historiadora mostra como a imagem do Brasil – a de um grande laboratório racial no século 19 – mais estigmatizou do que ajudou a construir uma democracia mestiça.

Canibalismo. Há provas artísticas de como a noção de superioridade racial foi disseminada por perversos darwinistas no país da cobra grande. Num trabalho anterior, Testemunhas Oculares (1997), Adriana se fez retratar por uma pintora acadêmica como uma índia, uma chinesa e uma moura. Faltou a branca, justamente a que iria classificar e ordenar as demais, segundo conta Lilia no livro Pérola Imperfeita.

A índia, observa a historiadora, veio de Eckhout, que costumava retratar canibais levando pernas e mãos decepadas para piqueniques na floresta. A moura veio de Delacroix, um ótimo pintor e péssimo orientalista. Complementando o trabalho, três pares de olhos em porcelana e prata camuflavam cenas do belga Theodor de Bry, todas registrando atos de canibalismo praticados pelos nativos. Detalhe: nas três Adrianas que representam três diferentes raças, foram arrancados um dos olhos, "como faziam as senhoras dos escravos, invejosas das mucamas, amantes de seus maridos", lembra Lilia Schwarcz.

Subversão. A pintura de Adriana é feita de imagens de violência e canibalismo. É uma réplica da história sangrenta registrada pelos pintores viajantes e por artistas que jamais pisaram no Brasil, como Theodore de Bry (1528-1598), um ourives e gravador fascinado pelo Novo Mundo, que retratou cenas de canibalismo relatadas por Hans Staden. De Bry teve de fugir para a Alemanha, perseguido por católicos espanhóis. "Uso essa iconografia para subverter", nota a artista. E subverte mesmo, acentua a historiadora Lilia Schwarcz, citando o exemplo de sua intervenção na paisagem brasileira idealizada por Taunay, destruída pela inserção de blocos de tinta vermelha assemelhados a nacos de carne.

Há no livro outros exemplos de subversão, como duas pinturas que fazem uma releitura erótica de Debret. Em duas telas denominadas Filho Bastardo (uma de 1992 e outra de 1995), é possível identificar um senhor de escravos de um aquarela de Debret, Um Jantar Brasileiro (1827), seviciando a escrava. Numa outra releitura, é um padre católico que assume o estupro. Nada disso passou pela cabeça de Debret, um neoclássico. "A gente aprendeu a ver o Brasil a partir do olhar estrangeiro", observa Lilia Schwarcz, destacando o papel de Adriana como "detonadora de dúvidas", uma pintora que vem "problematizar", mais do que explicar.

Barroca. É essa tensão entre o neobarroquismo de Adriana e o ideal neoclássico debretiano que transforma a visão do sistema escravocrata brasileiro na época colonial. Em Debret, os escravos são atletas, segundo a historiadora. Na reinterpretação de Adriana, eles são vítimas de sevícias. O "não dito" em Debret vira um grito estridente nas pinturas da carioca. A historiadora conta que se interessou por sua obra pela irreverente interpretação dos azulejos portugueses – que, aliás, são belos exemplos de caninalismo artístico, roubando o azul da porcelana chinesa. "Até inventei o verbo azulejar para definir a obra de Adriana, porque ela pavimenta um caminho em que dialoga diretamente com o barroco, alterando o contexto original dessas obras, ou seja, sem saudosismo ou sentimento nostálgico".

Adriana diz que o barroco é "sensacional" e que grandes gênios da arte latina – Aleijadinho, por exemplo – provam como a miscigenação deu certo abaixo do Equador. "Sou produto disso e me sinto constantemente inspirada pela teatralidade, pela paixão do barroco". Esse canibalismo estético é ditado pelas leis de antropofagia oswaldiana, ou seja, pela constatação modernista de que nunca fomos civilizados e vivemos canibalizando outras culturas, o que nos transforma em seres mais fortes, alimentados pelo espírito do inimigo. A erotização tropical entra como um elemento a mais (como na livre releitura de Debret, em que o padre estupra a negra).

Após o desmonte da iconografia construída pelos pintores viajantes, Adriana agora leva para o estrangeiro sua nova produção. Ela abre duas mostras nos EUA: uma em Nova York, na Lehmann Maupin Gallery (dia 24) e outra em Boston, no ICA Boston, dia 18 de novembro.

Tudo o que sabemos sobre:
Adriana VarejãoLilia Schwarcz

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.