Pinter e seus jogos de poder

Tudo parece só conversa fiada. Como em quase todos os textos do britânico Harold Pinter, o início da peça O Amante transporta o espectador para uma situação pretensamente prosaica. Em uma elegante casa do subúrbio, um casal se despede. Sorridente, a mulher deseja ao marido um bom dia de trabalho. Antes, porém, lhe conta que deve passar a tarde com seu amante. O tom é cortês, amigável, corriqueiro. Como se estivessem a falar do tempo. Como se o drama de Pinter não fosse mais que uma comédia de costumes.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Com estreia marcada para hoje, no teatro Nair Bello, a encenação de Francisco Medeiros escala Paula Burlamaqui e Daniel Alvim para protagonizar o arguto jogo proposto pelo dramaturgo. Por trás da suposta artificialidade com que lidam com suas aventuras extraconjugais, as personagens do casal Sarah e Richard desdobram-se em estratégias de poder e mascaram sua incapacidade de se relacionar com o outro. "Esse jogo de poder, essa necessidade de dominação estão no nosso DNA hoje. São essas as questões que trazem essa peça para perto da contemporaneidade", comenta o diretor sobre a candência do texto escrito em 1963.

Parece, mas não é. Lançado originalmente como programa de televisão e rapidamente transposto para o teatro, o texto de autor inglês conduz o público a algumas ilações. A primeira delas diz respeito à existência de um verdadeiro triângulo amoroso. Porém, é só quando o amante, Max, finalmente aparece que se desnudam os reais motivos de conflito na relação conjugal. Richard e Max são, ao fim das contas, a mesma pessoa. Um artifício criado por ambos, que muitos críticos interpretaram como sintoma das neuroses da burguesia britânica.

"Mas não é só isso", ressalva Medeiros. "Pinter não é um descrente. Apesar das dificuldades, eles lutam pelo encontro. O combustível dessa relação é o amor que existe entre eles."

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